Amauri Queiroz

terça-feira, 31 de maio de 2011

Míriam Leitão, Christine Lagarde e o FMI


O FMI virou não se sabe muito bem o que depois do terremoto de 2008 e seus after-shocks. Tão duro e exigente com os emergentes, tão condescendente com os países que o controlam! É uma contradição insanável. Ontem, Christine Lagarde disse que ser europeia não é benefício nem falta. É benefício sim. É o que a mantém na frente da disputa.
Lagarde tem vários méritos, mas sua certidão de nascimento é o fator determinante de estar na frente da disputa pelo cargo mais importante do Fundo Monetário Internacional (FMI). Fosse tudo o que é, boa gerente, boa ministra das Finanças, advogada reconhecida, boa comunicadora, boa negociadora, com inglês perfeito, mas tivesse nascido em qualquer país não europeu, não seria a candidata do G-8. Portanto, não é uma falha ser europeia, mas é um benefício.
Lagarde será a nova diretora-gerente do FMI porque os ricos se uniram em torno dela e porque os emergentes não se uniram em torno de ninguém. A China está de olho em um lugar para si, o segundo posto. Os candidatos avulsos que aparecem são mais lembranças de analistas que qualquer movimento de articulação. Só o México lançou Agustín Carsten, presidente do Banco Central do país.
A imprensa inglesa tem criticado mais que os países emergentes esse monopólio do cargo mais importante do Fundo pela Europa. Segundo a “Economist”, o monopólio é há muito tempo uma anomalia.“É tempo de acabar com isso.” Ainda de acordo com a revista, “dadas as circunstâncias da saída do Sr. Strauss-Kahn, o fato de ela ser mulher é um bônus.”
O Brasil não tem intenção de lançar candidatura para marcar posição, mas gostaria que tivesse sido diferente a substituição de Strauss-Kahn. Inclusive quando o francês esteve no Brasil pedindo voto, o país tinha pedido que o critério de ser sempre um europeu a dirigir o Fundo fosse quebrado. Ele prometeu. Mas sua saída intempestiva e traumática invalidou o combinado.
Mais do que um critério ultrapassado, o que a “Economist” diz é que é inapropriado que seja um europeu porque é lá que ocorre a principal crise financeira do mundo hoje. “O Fundo teria que ser um árbitro imparcial da política econômica. É a única organização que pode forçar a repensar a estratégia falha para a solução dos problemas da Grécia, Portugal e Irlanda.” Segundo a revista, as pretensões presidenciais do ex-diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn o levou a ser muito suave nas exigências à região. Diz ainda que Lagarde fez parte desse movimento de “defender o indefensável.”
O mais influente colunista inglês, Martin Wolf, do “Financial Times”, também não acha que ela é a melhor pessoa. Argumenta que apesar de seu bom currículo, seu forte é assuntos jurídicos e que em economia seu conhecimento é limitado, o que a fará depender mais dos seus assessores. Portanto, se ela assumir será fundamental saber quem vai substituir o vice-diretor-gerente, John Lipsky.
Mas ela será a nova diretora-gerente porque como ela mesma disse: manda quem paga. O Fundo é uma soma de contribuição dos seus sócios, vota mais quem depositou mais. A Europa tem 32% dos votos. Tem uma representação acima do seu tamanho no PIB mundial, que está caindo de 25% em 2000 para 18% em 2015; os Estados Unidos têm 16,7% dos votos. Juntos, eles têm quase metade dos votos. Para os Estados Unidos é conveniente o acordo feito com a Europa em que é seu o controle do Banco Mundial. Então fica tudo como dantes apesar das profundas alterações na distribuição do poder global. Segundo Wolf, é compreensível que para a Europa seja tão vital controlar o FMI neste momento: 79,5% dos créditos do Fundo foram concedidos para países europeus.
Para a “Economist”, é exatamente essa concentração de recursos para a Europa que deveria impedir que o FMI continuasse sendo controlado pela região. A revista compara: seria como entregar para a Argentina o controle do Fundo nos anos 1980, ou para a Tailândia, em 1997.
Argumentos bons, mas os próprios articulistas sabem que nada disso será levado em conta. O momento poderia ser bem mais interessante se houvesse um candidato só dos países emergentes, mas os nomes que surgem são mais lembranças dos analistas do que candidaturas do grupo. Cartens, do México, foi lançado por seu governo. Os outros citados pela “Economist” aparecem pelas qualidades que têm, como Tharman Shanmugaratnam, de Cingapura, ministro das Finanças e chefe do conselho do Fundo; Mark Carney, presidente do Banco do Canadá; e Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central brasileiro e que integrou o grupo de reforma do FMI.
A Europa não está toda mal. Pelo contrário, os países fortes estão se recuperando. O problema é a exposição do Banco Central Europeu às dívidas dos países mais encrencados da região. Foi por isso que ontem a Alemanha decidiu abandonar as exigências que fazia para dar novo empréstimo à Grécia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário