Amauri Queiroz

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Direitos Humanos

São normas, princípios e valores referentes ao respeito à vida e à dignidade. A sua maior referência é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, pois dela derivam Declarações, Pactos, Tratados e Convenções Internacionais de Direitos Humanos que delineiam e materializam mecanismos formais de proteção.
Em âmbito nacional, a Constituição Federal de 1998, no artigo 1.º, compromete-se com a prevalência dos Direitos Humanos nas relações internacionais e, no artigo 5.º, estão definidos os direitos e as garantias fundamentais.
Atualmente, após cinco décadas de dedicação quase exclusiva aos direitos humanos civis e políticos, inicia-se necessariamente, um processo de priorização dos direitos humanos nas suas dimensões econômica, social e cultural, contudo, reconhecendo a primazia dos aspectos de indivisibilidade, interdependência, inter-relação, internacionalidade e universalidade dos direitos humanos.
O fortalecimento de cada um dos direitos consolida os demais. Assim, temos os direitos humanos como o conjunto dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais.

*Direitos Econômicos:: Constituem-se o direito a um padrão de vida mínimo, o direito ao trabalho e aos direitos trabalhistas, o direito á alimentação, os direitos do consumidor e o direito ao meio ambiente saudável.
*Direitos Sociais: São os direitos á educação, ao lazer, ao transporte, á habitação, á seguridade social, à saúde física e mental e à segurança.
*Direitos Culturais: São os direitos das minorias étnicas e raciais, de gênero, de orientação sexual, etc. e o direito de beneficiar-se do progresso científico da humanidade.
*Direitos Civis: Compreende o direito á vida, o direito de ir e vir, o direito á livre associação e reunião, o direito à propriedade, à inviolabilidade da vida privada, à liberdade de opinião, pensamento e religião, à igualdade perante a lei.
*Direitos Políticos: Dizem respeito à participação dos cidadãos no governo da sociedade, enfim, à participação no poder. Neles, estão inscritos o direito à organização de partidos, de votar e ser votado, de fazer manifestações políticas.

AMAZÔNIA SACRIFICA MAIS UM MÁRTIR

Mais uma vez a floresta amazônica é manchada com sangue de seus defensores. Agora foi a vez de José Cláudio Ribeiro da Silva, conhecido como Zé Castanha, e sua esposa, Maria do Espírito Santo. Foram covardemente assassinados na terça-feira, 24/05 no assentamento Praia Alta da Piranheira. O casal que vivia da extração de castanhas ficou conhecido pelas denúncias contra madeireiras e carvoarias que depredavam o ecossistema da região.
Foi mais um crime da morte anunciada, pois, em recente evento gravado em vídeo, Zé Castanha fez um último alerta sobre as ameaças que vinha recebendo. Lembrou os destinos de Chico Mendes, Padre Josimo e Irmã Dorothy, entre tantos outros mártires, prevendo que sua estória poderia ser a mesma.
Que o extermínio de defensores da floresta tornou-se comum no Brasil, não há dúvida, porém, o que mais nos assusta foi a atitude da bancada ruralista na Câmara dos Deputados que lá estava para a votação do novo Código Florestal. Ao ouvir a notícia do crime pelo Deputado Sarney Filho, ruralistas nas galerias e deputados do agro-negócio no plenário, emitiram uma estrondosa vaia ao casal recém morto.
Fico estarrecido e indignado com a atitude desses parlamentares que são pagos com dinheiro público para defender a sociedade. A execução brutal foi planejada nos mínimos detalhes: os assassinos danificaram uma ponte onde o casal teria que passar e armaram a emboscada. Zé Cláudio desceu para verificar os estragos e ali mesmo foi fuzilado. Sua mulher foi executada dentro do carro, os dois não tiveram a mínima chance de se defenderem. Uma das orelhas de Zé Cláudio foi arrancada e levada como prova de que o “trabalho” havia sido executado. O bandeirante Domingos Jorge Velho cortou e salgou 13 mil pares de orelhas como prova da destruição do Quilombo dos Palmares. Parece que a prática ainda vigente nas regiões onde o Brasil ainda vive no sistema feudal,como é o caso da floresta amazônica.
Os dois viviam em Nova Ipixuna há 24 anos, em um terreno de 20 hectares no Projeto de Assentamento Agroextrativista (Paex) Praialta- Piranheira, às margens do lago de Tucuruí. Extraíam óleo de andiroba e castanha. Em palestra em novembro, no evento TEDx Amazônia, Zé Claudio denunciava o desmate. "É um desastre para quem vive do extrativismo como eu, que sou castanheiro desde os 7 anos da idade, vivo da floresta e protejo ela de todo jeito. Por isso, vivo com a bala na cabeça, a qualquer hora". Gilberto Carvalho, Secretário-Geral da Presidência relatou o ocorrido à presidente Dilma Rousseff e ela determinou ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo que a Polícia Federal apure o assassinato dos sindicalistas.
O Evangelho de Lucas 19,40 diz: "não podemos nos calar diante desta barbárie, pois se nos calarmos, as florestas falarão".

Pimenta Neves Prova que para os Ricos o Crime Compensa

Sandra Gomide foi assassinada friamente pelas costas por seu ex-amante, o jornalista Pimenta Neves em 20 de agosto de 2000. O crime ocorreu na cidade de Ibiúna, a 64 quilômetros de São Paulo. Inconformado com o fim da relação que já durava 4 anos, Pimenta Neves deu dois tiros nas costas da vítima e um na cabeça, este com a jovem já caída ao solo. Réu confesso do crime ficou preso de setembro de 2000 a março de 2001, quando o STF concedeu-lhe um habeas corpus para responder pelo crime em liberdade. Em maio de 2006, o Tribunal do Júri de Ibiúna condenou Pimenta Neves a 19 anos e dois meses de prisão.
Iniciou-se aí uma verdadeira maratona de recursos e protelamentos, onde a defesa recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo, que reduziu a pena para 18 anos. O tribunal paulista também deu ao réu um habeas corpus para ele recorrer em liberdade. Em 2008 o STJ reduziu a pena a 15 anos de prisão, após mais um recurso. A defesa de Pimenta Neves recorreu mais de 20 vezes ao STJ e ao STF. Em março, o ministro Celso de Mello, relator do recurso no STF, considerou que o jornalista perdeu o direito de recorrer, porque os argumentos apresentados já tinham sido analisados pelo Tribunal de Justiça paulista e pelo STJ. Na terça-feira, 24/05, o Supremo Tribunal Federal (STF) negou o último recurso que tentava anular a condenação de 15 anos de prisão pelo crime. O jornalista foi preso na casa dele, na Zona Sul de São Paulo, ainda na noite de terça-feira. Pimenta Neves também foi condenado a pagar R$ 166 mil de indenização por danos morais aos pais de Sandra, que teriam ficado doentes após a morte da filha. O jornalista já está cumprindo pena no presídio de Tremembé, aonde chegou no dia 25/05 às 15:30h. Também cumprem pena em Tremembé condenados por crimes que tiveram repercussão nacional como Alexandre Nardoni, acusado pela morte da filha Isabela Nardoni, e os irmãos Christian e Daniel Cravinhos, que junto com Suzane Richthofen mataram os pais dela. Parece que o jornalista assassino estará em ótima companhia.
Como a justiça no Brasil privilegia os mais abonados, o promotor de Justiça Carlos Horta Filho disse que o jornalista Antonio Pimenta Neves poderá ficar preso em regime fechado, por pouco tempo. Depois de cumprir 1/6 da pena - 30 meses - em regime fechado, Pimenta Neves poderá pedir na Justiça a progressão para o regime semi-aberto, se tiver bom comportamento. Como ele já ficou preso 7 meses, na prática, significa que restam apenas um ano e 11 meses para que ele fique em regime fechado. No regime semi-aberto, o preso pode sair durante o dia, mas dorme na prisão. Nesse regime, o detento tem direito também a sete saídas temporárias por ano, em feriados como Dia das Mães e Páscoa.
Pimenta Neves tem 74 anos e os advogados de defesa afirmam que ele está doente, com diabetes e hipertensão. Com isso, abre-se a possibilidade de que a defesa entre na Justiça com pedido de prisão domiciliar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

FORÇAS ESPECIAIS DOS EUA MATAM BIN LADEN

O CRIADOR MATOU A CRIATURA


O mundo recebeu atônito a informação que certamente causará grandes impactos na história contemporânea universal. Na segunda-feira, 02 de maio de 2011, o Presidente Barak Obama noticiou a execução por parte de um comando especial Seal da Marinha dos EUA, do principal líder da rede al-Qaeda, Osama Bin Laden, que em 2001 comemorou em vídeo o sucesso dos horrendos ataques do 11 de setembro, onde mais de 3.000 pessoas de diversas nacionalidades que perderam a vida em New York, Washington e Pennsylvania.
Usāmah bin Muhammad bin Lādin, também chamado de ‘O Emir’, nasceu em 10 de março de 1957. filho único de Hamida al Athas, décima esposa de Muhammed bin Laden, pobre imigrande iemenita que fez grande fortuna no ramo da construção civil erigindo um império em seu novo país. A família bin Laden é a segunda mais próspera da Arábia Saudita, abaixo apenas da casa real de Riad. Osama bin Laden graduou-se em Engenharia na Universidade Rei Abdul Aziz, na Arábia Saudita, tinha mais de 50 irmãos e 23 filhos, tendo casando-se com seis esposas. Seu patrimônio é estimado em 250 milhões de dólares investidos em mais de 60 empresas ao redor do globo.
Sua ligação com as forças de segurança dos EUA remonta desde 1979, quando aos 22 anos se tonou voluntário, com o apoio da CIA – Agência Central de Inteligência, no combate aos soviéticos que invadiram o Afeganistão. Osama nunca titubeou em dilapidar sua fortuna na ‘guerra santa’ contra o ‘exército vermelho’, financiando e organizando grupos de árabes e acampamentos de milícias armadas jihadistas no combate aos invasores soviéticos. O embaixador saudita nos EUA príncipe Bandar bin Sultan, disse ter conhecido Bin Laden nos anos 80, quando Osama agradeceu-lhe pelo apoio que os sauditas e os EUA estavam dando contra os soviéticos. A Al Qaeda, foi fundada em 1987, ainda durante a guerra de guerrilha com Moscou.
Em 1991, vivendo em sua terra natal, critica o governo saudita pela utilização do seu território por forças dos EUA, na Guerra do Golfo. Considerado ‘persona non grata’. Deixa o país e em 1994 e parte para o Sudão onde se estabelece como empresário enquanto nas sombras organiza a Al Qaeda, pensando em destronar e destruir a família real saudita. Bin Laden nunca aceitou o modo ocidental de viver do Rei Fahd e seus familiares, buscando a implantação de um ‘califado islâmico’.
No Sudão alia-se com grupos islâmicos egípcios, que o influenciaram a combater de forma xenofóbica judeus e estrangeiros ocidentais. Nesse meio tempo assumiu o terrorismo como modo de ação, executando pequenos ataques no Egito e Argélia. Em meados dos anos 90 fracassa em um atentado contra a vida do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Por esse motivo foi expulso do Sudão a pedido dos países árabes. Perdeu todos os seus bens, partindo falido para o Afeganistão, com um pequeno grupo de seguidores. Nesse interim a família o renega e ele perde a nacionalidade saudita.
No Afeganistão, investe todas as suas forças na causa islâmica, reconstruindo gradualmente a organização terorista, aliando-se a outros grupos islâmicos abrigados no país. Dentre todos tinha como principal parceiro a poderosa "Al Jihad" egípcia e o lado mais radical da Irmandade Muçulmana. Define então os EUA como o grande adversário, o grande ‘satã’ a ser combatido. Fortalece-se mais ainda ao juntar-se ao Talibã, grupo financiado pelos EUA e Arábia Saudita e comandado pelo novo companheiro o Mulá Omar. Juntos organizam campos de treinamento de guerrilheiros e passam a ameaçar os Estados Unidos. Inicia-se o período das grandes ações com o ataque das embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998, que resultou na morte de quase 300 pessoas e milhares de feridos. Em 2000 atacam o navio de guerra dos EUA, USS Cole, no porto do Iêmen, matando 17 marinheiros estadunidenses.
O ‘apocalipse’ se deu no 11 de setembro de 2001, com dois aviões atirados contra as torres gêmeas do World Trade Center e um no Pentágono, coração das forças armadas dos EUA. A partir de então, com o início da Guerra ao Terror, as forças de segurança dos Estados Unidos, em especial as agências de informações oficiais (CIA, USSOCOM e JSOC) e não-oficiais, a elite dos comandos especiais Seal e Delta, o Mossad israelense e os serviços secretos europeus e árabes, empreenderiam uma caçada sem tréguas ao líder terrorista.
Das cavernas de Tora Bora às tribos nômades do Paquistão, desertos, montanhas, cidades, céus e mares. tudo era vasculhado com a violência de um tornado, pelas operações militares e com a paciência de um enxadrista, pelos setores de inteligência. A captura era questão de tempo, mesmo que levasse uma década. Em 1 de maio de 2011 o presidente dos EUA, Barak Obama anunciou que Osama bin Laden havia sido morto. A operação hiper-sigilosa foi filmada e acompanhada pela casa Branca em tempo real. Ao final a mensagem em linguagem das forças especiais: “Geronimo/ EKIA” (Gerônimo – codinome para Bin Laden e Enemy Killed in Action, traduz-se:  Inimigo Morto em Ação”. Nada de cavernas nem desertos, Bin Laden foi fuzilado pelas forças especiais dos EUA em uma mansão de um milhão de dólares no subúrbio de Abbottabad, há menos de um quilômetro de distância de uma academia militar. A cidade dista cerca de 50 quilômetros da capital paquistanesa de Islamabad.
Algumas reflexões martelam a mente de especialistas em geopolítica: será mera coincidência a morte de Osama acontecer simultaneamente aos levantes populares do Norte da África? Estará a Al Qaeda por trás da insurgência popular, como enfatizam Ali Abdullah Saleh, Kadafhi e Bashar Assad, presidentes do Iêmen, Líbia e Síria e Hosni Mubarak, presidente deposto do Egito, países diretamente atingidos pelos levantes? Será que as forças internacionais (política e negócios) temem a instalação de um califado islâmico na região, sonho acalentado por Bin Laden?
Em seu documentário, Fahrenheit 9/11, o cineasta Michael Moore detalha a cumplicidade entre a família Bush e amigos com a família Bin Laden. Moore mostra uma relação de trinta anos, e nos leva a crer que guerras como Iraque e Afeganistão são meros artifícios utilizados para os grandes grupos econômicos defenderem os interesses americanos e sauditas na região. O que sabemos verdadeiramente é que durante o caos do 11 de setembro, nos EUA, o único avião civil autorizado a decolar e cruzar o espaço aéreo do país foi o jato da família Bin Laden, autorizado diretamente pelo presidente dos EUA à época, George Bush. Já na era Obama, para a conjuntura política dos democratas, nada seria mais circunstancial que a captura e morte do inimigo nº 1 dos EUA. Pois, como é de praxe, todos os mandatários estadunidenses costumam gerar fatos espetaculares antes das eleições presidencias. O Oriente Médio continua sendo um prato cheio para essas operações.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Miríam Leitão Homenageia Abdias Nascimento

Uma vez, numa entrevista que me concedeu, Abdias Nascimento disse que ele foi preso, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, viveu no exílio por 10 anos, sem ter nunca integrado qualquer partido clandestino de combate à ditadura.
- Tudo o que eu fiz foi combater o racismo.
Era uma forma de mostrar que esse tema sempre foi tratado como inconveniente. Na ditadura, era proibido. Isso era subversivo o suficiente para os ditadores da época. Hoje ainda é delicado e difícil. Sua vida foi dedicada a tratar desse assunto intratável.
Como jornalista, teatrólogo, escritor, cineasta, artista plástico, senador, militou na mesma causa: construir um país realmente multiracial com a derrubada, de fato, de todas as barreiras que impedem a ascensão dos negros no Brasil.
Não um país que finge não ver as diferenças para proclamar a igualdade, mas o que constrói as pontes fortalecendo a autoestima dos pretos e pardos brasileiros e abrindo oportunidades. Foi por esse Brasil que Abdias lutou.
Abdias abriu espaços notáveis na cultura brasileira para essa sociedade com a qual sonhou por tanto tempo. Quilombo era um jornal dos anos 1950 que abriu a discussão do combate ao racismo. O Teatro do Negro foi outra iniciativa pioneira que revelou inúmeros talentos para a dramaturgia brasileira, numa época em que atores brancos pintavam o rosto de preto para fazer os papéis de negros. Na militância foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado.
As conversas com ele e sua mulher Elisa Larkin, americana de nascimento, eram sempre ricas de reflexões sobre velhos vícios do Brasil, como o de negar o problema.
Nos últimos anos ele viu duas notícias. A boa é que é visível a formação da classe média negra e do aumento do poder de pretos e pardos no Brasil. A ruim é que as distâncias permanecem enormes e uma parte do país prefere não discutir o tema, insiste em ficar em atalhos que fogem da questão central. A desigualdade racial ainda é enorme no Brasil.
Outro dia fui ao Sindicato dos Jornalistas do Rio no lançamento do Prêmio Abdias Nascimento. Sindicato ao qual ele se filiou em 1947.
Ele já estava doente, mas a cerimônia aconteceu ainda assim. Lá eu disse que Abdias, que tinha 97 anos, foi precursor e persistente no mesmo sonho ao longo da vida inteira: a de combater o racismo em todas as suas formas.
Fará falta Abdias, mas quem sonha com um Brasil de menos desigualdades, sabe que ele combateu o bom combate.

Morre Abdias Nascimento

É com pesar que recebo a notícia do falecimento de Abdias do Nascimento um de meus mestres em terras brasileiras. Um homem que aos quase cem anos, nunca arrefeceu da luta contra a discriminação racial e o preconceito. Por muitas vezes tive o privilégio de frequentar sua residência no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Ficava ali bem quietinho, ouvindo deslumbrado as narrativas de suas andanças e embates políticos pelo mundo. Enquanto sua companheira Elisa Larkin nos mostrava com provas cabais que os africanos estiveram nas Américas antes de Colombo, Américo Vespúcio e Cabral. Abdias nasceu em Franca em 14 de março de 1914, para se consagrar como um dos maiores expoentes da cultura negra das Américas. Professor Benemérito da Universidade do Estado de Nova York e doutor "Honoris Causa" pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ator, escritor, artista plástico. Trabalhou incansavelmente pela igualdade racial e pelo Pan Africanismo. Foi fundador da Frente Negra Brasileira em 1931 que chegou a ter em seus quadros mais de 100 mil associados. Organizou o I Congresso Afro-Campineiro e o I Congresso do Negro Brasileiro, no Rio de Janeiro. É autor de vários livros: "Sortilégio", "Dramas Para Negros e Prólogo Para Brancos", "O Negro Revoltado", entre outros.
Criou o Teatro Experimental do Negro-TEN em 1944 que tinha como objetivo a valorização do negro no teatro e a criação de uma nova dramaturgia. O Teatro Experimental do Negro atuava por meio da conscientização e também da alfabetização do elenco, recrutado entre operários, empregadas domésticas, favelados sem profissão definida e modestos funcionários públicos. O espetáculo Imperador Jones, dirigido por Abdias do Nascimento, estréia em maio de 1945 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e obtém grande receptividade.
Após o golpe militar de 64 exilou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou como professor universitário. Co-fundador do Movimento Negro Unificado em 1978, em maio de 1980, foi juntamente com Leonel Brizola – de quem se tornara amigo no exílio – um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Escolhido vice-presidente do partido em 1981, nesse mesmo ano fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 1982, retornou definitivamente ao Brasil. Em novembro de 1982 concorreu à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro, obtendo a terceira suplência da legenda. Com a eleição de Brizola para o governo do Rio naquele mesmo pleito e a nomeação do deputado José Maurício para a Secretaria de Minas e Energia, Abdias assumiu em março de 1983 uma cadeira na Câmara. Em 25 de abril de 1984, votou favoravelmente à emenda Dante de Oliveira, que previa o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República em novembro seguinte. Abdias retornou à Câmara no dia 16 de janeiro, logo após a realização do Colégio Eleitoral. No ano seguinte, voltou à suplência. Sua atuação como deputado foi centrada na defesa dos direitos humanos e civis dos negros no Brasil. Enfocando o racismo e a discriminação racial como questões nacionais, propôs o estabelecimento de feriado nacional no dia 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, apresentou projeto de lei que previa a criação de uma cota de 20% de vagas para mulheres negras e de 20% para homens negros na seleção de candidatos ao serviço público.
As iniciativas de Abdias tiveram desdobramento durante as discussões da Assembléia Nacional Constituinte. Com a nova Carta, promulgada em outubro de 1988, o direito brasileiro passou a contemplar a natureza pluricultural e multiétnica do país, a prática de racismo tornou-se um crime inafiançável e determinou-se pela primeira vez a demarcação das terras dos remanescentes de quilombos, antigas comunidades de escravos. Abdias foi um dos responsáveis pela instituição da Comissão do Centenário da Abolição em 1988 e por seu desdobramento na Fundação Cultural Palmares.
Em outubro de 1990 compôs como suplente de Darci Ribeiro a chapa lançada pelo PDT ao Senado. Em abril de 1991, foi escolhido por Leonel Brizola, que se reelegera governador do Rio de Janeiro em 1990, para ocupar a Secretaria Extraordinária para Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras. Em final de agosto, Abdias substituiu Darci Ribeiro que se tornara secretário de Projetos Especiais do governo fluminense no Senado. Após a morte de Darci em fevereiro de 1997, voltou ao Senado em caráter definitivo, exercendo o mandato até janeiro de 1999, ao final da legislatura 1995-1999. Participou do governo de Anthony Garotinho (1999-2002) como secretário de Direitos Humanos e da Cidadania.
Foi casado com Maria de Lurdes Vale Nascimento. Casou-se pela segunda vez com a atriz Léa Garcia, com quem teve dois filhos, e pela terceira vez com a antropóloga norte-americana Elizabeth Larkin Nascimento, com quem teve um filho.
Abdias Nascimento nos deixa um verdadeiro legado de honradez e combatividade em prol dos Direitos Humanos e cidadania. Abdias Nascimento e o geógrafo Milton Santos, certamente foram duas grandes injustiças que a Academia Brasileira de Letras perpetrou no Brasil. Não consigo entender o motivo de nunca tenham sido convidados a envergar aquele simbólico fardão, que significa erudição e serviços prestados ao país nos campos da literatura, humandades, arte e cultura. É sempre bom recordar que aquela casa foi fundada por um negro chamado Machado de Assis.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sandra Werneck - Cinema nas Entranhas


Domingo de outono, fim de noite, assisto entediado a programação da TV aberta. Faustão berrando de um lado, Gugu e Rodrigo Faro do outro, Silvio Santos atirando aviõenzinhos de dinheiro na platéia, Paulo Henrique Amorim gritando que em poucos minutos iniciaria um outro programa de variedades e o jurássico fantástico se anunciando como grande atração a atuação de um mediador de Direito do Consumidor e a visita ao quarto do motel onde um empresário foi assassinado por sua ninfeta fatal ...ninguém merece.
Deprimido e arrependido por ainda não ter contratado uma empresa de TV por assinatura, resigno à mixórdia da programação dominical.
Que bela surpresa tive então!!!! Passo pelo canal Brasil que apesar do título convidativo costuma, em detrimento ao cinema nacional, passar uns filmes latino-americanos sem pé nem cabeça, neste horário de domingo à noite e assisto Conexão Roberto D’Ávila, que entrevista a cineasta Sandra Werneck.
Confesso que sinto uma pontinha de inveja dos cineastas e diretores de teatro. Imagine, trabalham com pessoas sensíveis e maravilhosas, como as Fernandona e Fernandinha, Renata Sorrah, Tarcísio Meira, Selton Melo e Paulo Betti, entre outros. Não quero nem pensar na alegria que deve ser dirigir Marieta Severo, Evandro Mesquita, Pedro Cardoso e Tonico Pereira em a Grande Família.
Passo pela TV Brasil e vejo uma mulher lindíssima na tela, parecendo até aquelas modelos balzaquianas das propagandas da Natura. Mas tinha ali uma atração que me prendeu de vez ao programa: a maneira de falar, a gestualidade, a leveza, a firmeza, a certeza, enfim, a mais completa noção de estar aqui no mundo e ter estórias para contar.
Não conhecia o pensamento nem a carreira de Sandra Werneck. É originalmente de classe média alta (para produzir seu primeiro filme vendeu duas vacas que o avô lhe presenteara) e mesmo assim trabalhou de garçonete em Amsterdã para realizar seu sonho de fazer cinema. Conseguiu, tem em seu currículo filmes como Cazuza – O tempo não para; Pequeno Dicionário Amoroso (baseado no fim de seu segundo casamento); Amores Possíveis; Sonhos Roubados; Meninas; Guerra dos Meninos; Damas da Noite entre outras obras profundamente marcadas pela temática social. Seu mais recente projeto é Marina e o Tempo, onde diz ter sido privilegiada por filmar a vida da ambientalista e política Marina da Silva.
Sandra Werneck merece todos os aplausos possíveis. É uma brasileira que antenada com nosso tempo e não se deslumbrou com a fama. Conhece as favelas do Rio, onde sempre filmou, lança novos talentos e corre em suas veias aquelas soluções reveladoras de laboratório. Tanto que sua única filha faz cinema na Europa. Sandra deu um autêntico baile na programação fajuta do domingo televisivo brasileiro. Obrigado Roberto, por tão belo presente.