Amauri Queiroz

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Impérios, Ópio e Casamentos

Assisto com perplexidade o ‘frisson’ em torno da oficialização da união estável entre um dos herdeiros da coroa inglesa e uma plebéia da classe média britânica. O evento é vendido como a realização de um conto de fadas da Casa de Windsor. Eles sabem produzir um show midiático. Morei no Reino Unido por alguns anos e posso afirmar que tudo isso que lá acontece é encarado com a maior seriedade e alegria pelos seus súditos. Estudava no Hackney College em Londres e lembro-me bem do orgulho que os ingleses sentem pelo império “onde o sol nunca se põe”. Orgulham-se do poderio bélico nuclear, da vastidão do território colonial, do futebol que ‘inventaram’, do chá das cinco, das antigas tradições, dos Beatles e Rolling Stones. A força do império britânico pode ser medida pela representatividade atual de algumas das suas principais ex-colônias: EUA, Austrália, Singapura, África do Sul, Índia, Nova Zelândia, Brunei, Hong Kong, Jamaica, Honduras, Guiana e Belize, entre outras. O Império Britânico chegou a possuir cerca de 40 milhões de quilômetros quadrados e 500 milhões de habitantes. Um dos grandes responsáveis pela expansão foi Henrique VIII, o fundador da Igreja Anglicana, da Marinha Real e que cultivava o hábito de recitar poesias, apreciar a boa música e cortar as cabeças de suas esposas, seis no total. Existiram grandes impérios como Mongol, o maior de todos em extensão, construído por Gêngis Khan na Ásia Central, no século XIII. Apesar de não ter sido o maior em extensão territorial, o Império Romano foi o mais organizado no que se refere à gestão político-administrativa, arquitetura e urbanismo e organização militar. A pompa e as demonstrações de riqueza e poder dos impérios devem muito, ou tudo, à escravidão e exploração de seres humanos, pilhagens e saques, assimilação forçada da cultura alienígena, ocupação territorial pelas armas, sevícia coletiva de mulheres e crianças, enforcamentos, crucificações e toda a forma de flagelos. O centro de toda a plataforma econômica que fortaleceu a Europa no período pré-revolução industrial deu-se através do seqüestro, tráfico transatlântico e escravização de 11 milhões de africanos e 9 milhões de indígenas no Novo Mundo, das Guerras do Ópio na Ásia e da conquista e exploração de novos territórios coloniais ao redor do globo.. A Inglaterra colaborou imensamente com a escravidão através da transformação nos estaleiros de Liverpool e Plymouth, de centenas de navios comerciais em horrendos navios negreiros – menores e mais velozes, para trazerem os africanos seqüestrados que eram capturados na África Subsaariana. A exploração de suas colônias, com o sacrifício dos povos nativos enriqueceu a Inglaterra e quase todos os países europeus. Essa era a matriz do padrão global de colonização de todos os impérios que se erigiram em nosso planeta. Os hebreus foram escravos no Egito, os mamelucos eram escravos egípcios, os mongóis escravizaram os chineses, os povos eslavos dos Bálcãs foram escravos de diversos impérios (talvez de eslavo venha a palavra escravo, de ‘slave’ em inglês ou ‘sklave’ em alemão). Os heliotes eram escravos em Esparta. Enfim, onde há ou houve grande prosperidade, a escravidão e a exploração de outros povos sempre foram seus pilares. O tamanho do custo civilizatório e da riqueza do Reino Unido foi absurdamente alto para países como Índia e China. Os ingleses perpetraram um dos maiores crimes da humanidade que foi o tráfico de ópio para a China. A Inglaterra era a maior traficante de drogas daquele tempo. Eles levavam tão a sério a comercialização da droga na Ásia que produziram as famosas ‘Guerras do Ópio’, a primeira em 1839 e a segunda em 1856. Em 1840 a China importava anualmente do reino Unido cerca de 450 toneladas de ópio, ou seja, um grama para cada um dos 450 milhões de habitantes da China na época. A droga representava a metade da balança comercial sino-britânica. Nesse período a droga ameaçava diretamente a economia do país, assim como a segurança interna, através da deterioração da saúde dos soldados. Assistindo a derrocada do país um ministro chamou a atenção do imperador, com um aterrorizador comunicado: Majestade, o preço da prata está caindo por causa do pagamento da droga. Em breve, vosso império estará falido. Quanto tempo ainda vamos permitir este jogo com o diabo? Logo não teremos mais moeda para pagar armas e munição. Pior ainda, não haverá soldados capazes de manejar uma arma porque estarão todos viciados”. Em seu livro “Mar de Papoulas” o escritor indiano Amitav Ghosh narra a incrível saga do navio inglês Ibis, que traficava ópio para a China. O livro imperdível traça um panorama de realidade que conjuga a ação e aventura contida em Dumas com a profundidade de Tolstoi e as emoções de Charles Dickens. Ghosh construiu uma grande obra, que certamente já conquistou seu lugar na galeria dos grandes clássicos.Em relação ao enlace, não me agrada de jeito nenhum essa arcaica demonstração imperial, em tempos tão modernos, com tanta miséria e exclusão social em todos os recantos do planeta. Não entendi como o mundo inteiro pode parar para assistir um casamento de duas pessoas que já vivem juntas há 8 anos e com aquela carruagens emplumadas e personagens que parecem fantasiados de 'generais de opereta', como bem disse o bom Veríssimo. Não vamos nem considerar a piada do Monty Python que disse estar o Príncipe Philippe meio ‘apagadão’ e ao acordar teria perguntado quem era o louco que estava se casando.
Meu apanágio é ficar solidário com a memória daqueles que sofreram e morreram sob as piores atrocidades, para que a pompa imperial e o fausto se instalassem. Solidarizo-me com as famílias que perderam seus entes queridos no tráfico negreiro, na dormência do ópio ou no genocídio dos povos indígenas. As imagens enaltecidas e replicadas do evento foram distribuídas para todo o mundo como exemplo de organização, riqueza e poder. Foi uma clara demonstração eurocêntrica que o projeto de globalização e expansão capitalista necessita sobreviver. Mesmo que para isso se trabalhe o inconsciente coletivo de nossa ansiosa aldeia global.

Churrascão da Gente Diferenciada

A humanidade caminha a passos largos para um marco civilizatório cada vez mais pragmático e inclusivo. Chamou atenção na Internet uma convocação para um evento denominado: “Churrascão da Gente Diferenciada”, que foi um dos tópicos mais acessados no Twitter em maio deste ano e, faltando uma semana para sua realização já haviam sido listadas cerca de 14.000 confirmações. A página do ‘churrascão’ no Facebook é um sucesso e marca definitivamente no Brasil o início da militância desorganizada, porém antenada e engajada. Que motivo levaria seis dezenas de milhares de pessoas que nunca se vira, reunirem em pleno sábado em torno de um churrasco no meio da rua em um lugar tão aristocrático como Higienópolis? Por que o nome ‘Churrascão da Gente Diferenciada’? Tudo começou com um manifesto com 3.500 assinaturas de uma associação denominada ‘Defenda Higienópolis’, que se opôs à construção da estação do metrô no bairro, justificando que a obra atrairia “uma gente diferenciada", justificativa imediatamente abraçada e acatada pelo PSDB. A situação não se constituiu em fato isolado, pois, esta não é a primeira vez que o governador Geraldo Alckmin atende às pressões da burguesia contra construções do metrô. A Linha Amarela teve a construção de uma estação na Zona Sul cancelada pelo mesmo motivo, a freqüência de gente diferenciada.Vale ressaltar que Higienópolis é como Paris seria sem o Rio Sena: muito dinheiro e pouco charme. É um enclave burguês na paulicéia desvairada, onde tudo acontece sempre em alta velocidade e com muita diversidade. A ‘sampa’ que amamos é a de Florestan Fernandes, Mário de Andrade, Zé do Caixão e Tom Zé. A ‘sampa’ que cultuamos pariu o anarco-sindicalismo, a Semana de 22 e o ABC de Lula. Essa urbe multicultural e pluriétnica onde Rita Lee reina ao lado de Mano Brown e Netinho, jamais irá ‘bancar’ uma proposta de segregação, que nomeia os ‘sem Mercedes’ como ‘gente diferenciada’. Pois é, ao mudar de local a construção da estação da linha 6 do metrô paulistano, atendendo à xenofobia do grão-ducado local, o PSDB paulistano também mudou de trilho e assumiu sua plumagem real. Entrou na maior ‘saia-justa’ política com a população de São Paulo, quiçá do Brasil. A legenda que trava uma luta sem quartel para se livrar da pecha de representante da aristocracia nacional, ‘espirrou o taco’, se envolvendo com o que poderá ser a maior ‘sinuca de bico’ do tucanato dos últimos tempos. Se morassem em Canaãn, à época de Jesus, os burgueses de Heliópolis avaliariam Jesus e seus seguidores com muita atenção. Certamente malvestidos e cabeludos, apóstolos e Mestre não seriam recebidos com bons olhos pelos dandis do território. Convidados para uma festa de casamento, onde o vinho terminou antes da hora, o Filho de Deus operou seu primeiro milagre, transformando água em vinho conforme narra a perícopa bíblica em João 2, 1-11. Certamente, na hipotética Canaã, a avaliação dos Heliopolitanos sobre Cristo e seus apóstolos, seria que, filho de um carpinteiro, nascido numa gruta, sem ocupação fixa e com um grupo enorme de malvestidos a segui-lo, não poderia ser coisa boa para a cidade. Não diferiria muito da avaliação diária a que são submetidos Seus filhos contemporâneos que hoje habitam as grandes metrópoles. Vagando à espera de uma transformação, de um milagre, que lhes ofereça a cidadania e a justiça social, o pão e o vinho, a paz e o lar, família e trabalho. Com certeza Jesus Cristo e seus apóstolos seriam alcunhados pelos Heliopolitanos como ‘gente diferenciada’. O ‘churrascão’ aconteceu como previsto, no sábado, 14 de maio. Na véspera do evento, 60 mil pessoas já tinham se comprometido em participar da manifestação etílico-gastronômica. Não havia ‘chefetes’ políticos, sindicatos ou parlamentares oportunistas na organização do protesto. A ‘manif regabofe’ foi realizada defronte ao Shopping Higienópolis, reduto da elite local, com muita cerveja, samba e pagode. Para alegria geral, a única pimenta utilizada não foi a do ‘spray’ da Polícia Militar e sim a boa e velha malagueta, que temperava geral os espetinhos gordurosos e felizes.




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“Mês passado participei de um evento sobre as mulheres no mundo contemporâneo.
Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.
Foi um momento inesquecível... A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito.
Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?'
Onde, não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado 'juventude eterna'. Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas, mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se ‘mudança’.
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho.
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos.
Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol.
Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional.
Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza.
Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.


Olhe-se no espelho...”

HOMOFOBIA? Tô Fora!!!!

Parece que o machismo no Brasil sofreu um sério revés com a decisão do STF em reconhecer a “união estável” - termo que quer dizer casamento sem dizer - entre homossexuais. O exagerado sentimento de orgulho masculino está fadado à vala comum das excentricidades jurássicas da espécie humana. O preconceito contra homossexuais contém em seu bojo o mesmo sentimento que erigiu o nazi-facismo, a Ku Klux Klan, a escravidão, a xenofobia, os genocídios, enfim, tudo o que de pior produziu a espécie humana. A simples aceitação do outro, mesmo que com outras diferenças das nossas, que para os outros também são diferenças, tornaria esse planeta mais habitável, no que toca à civilidade e às práticas do bom pensamento e das boas maneiras.

O reconhecimento pelos ministros do Supremo Tribunal Federal - STF que a relação homoafetiva é uma família, fizeram justiça aos 60 mil casais de pessoas do mesmo sexo, segundo o último censo, e baniram do Brasil definitivamente a ‘inquisição surda’ que sempre calou nossa sociedade perante as injustiças perpetradas contra aqueles que pretendem viver em paz, com suas preferências sexuais, famílias e amores ao seu bem entender. Um dos ministros enfatizou em seu voto que a união homoafetiva é uma realidade social, um dado da vida. Na prática, a decisão viabiliza para os homossexuais direitos como pensão, herança e adoção. Agora, se um clube vetar o nome de um companheiro homossexual como dependente, por exemplo, o casal pode entrar na Justiça e provavelmente ganhará a causa, pois os juízes tomarão sua decisão com base no que disse o STF sobre o assunto, reconhecendo a união estável.

O ministro Celso de Mello deu seu voto afirmando que "toda pessoa tem o direito de constituir família, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero. Não pode um Estado Democrático de Direito conviver com o estabelecimento entre pessoas e cidadãos com base em sua sexualidade. É inconstitucional excluir essas pessoas". O ministro referendou que não se pode confundir questões jurídicas com questões de caráter moral ou religioso porque Brasil é um país laico. “A República é laica e, portanto, embora respeite todas as religiões, não se pode confundir questões jurídicas com questões de caráter moral ou religioso”, disse.

Em seu voto, o Ministro Luiz Fux declarou: "Por que o homossexual não pode constituir uma família? Por força de duas questões que são abominadas pela Constituição: a intolerância e o preconceito", afirmou. "Quase a Constituição como um todo conspira para a equalização da união homoafetiva à união estável", disse.

No Congresso Nacional, uma pesquisa realizada entre 320 deputados federais mostra que 228 são a favor do reconhecimento da "união estável" entre homossexuais. Já na questão da adoção de crianças por parte de casais gays, o placar foi apertado para os que apóiam: (154 X 145), fato que atualmente é possível, sendo que a partir de agora o nome dos dois parceiros ou parceiras, poderá constar no documento.

Outro grande passo que está sendo dado no Congresso Nacional é a tipificação da homofobia como crime. Projeto já aprovado na Câmara dos Deputados que está para ser votado no Senado, aonde se aprovado, irá para a sanção presidencial. Acredito que será uma dura batalha entre grandes poderes, pois, a relação homoafetiva é condenada por quase todas as religiões. Como será a criminalizar o preconceito sem ferir e ameaçar as instituições religiosas e suas liberdades de crença e expressão?

Recuperando o velho jargão das passeatas de rua dos anos 60, a luta continua. Precisamos garantir uma sociedade mais humana para as futuras gerações. Precisamos ainda mais, prestarmos toda a nossa solidariedade às pessoas discriminadas e aviltadas pela chaga da homofobia. Das pedras que querem atirar em Sakineh Ashtiani, no Irã, às fogueiras da Inquisição da Idade Média, às clitoriplastias africanas, às extirpações de narizes praticadas pelos maridos afegãos, às execuções de travestis nas ruas do Brasil, uma coisa é certa, condenar a homofobia e o preconceito é a coisa certa a fazer.


Andrea Horta

Quando fazia teatro em São Paulo, Andréia Horta buscava um jeito de pagar as contas. Juntou os textos que estavam guardados na gaveta e, numa edição independente, lançou um livro de poesias, "Humana Flor". O tempo de dureza passou. Andréia estrelou a série "Alice", na HBO, fez parte do elenco de "A cura", na Globo, e agora brilha na novela das seis, "Cordel Encatado". Mas a poesia ficou para sempre. Andréia faz uma poesia feminina. Não por acaso seu livro tem epígrafe de Clarice Lispector e um texto dedicado a Ana Cristina Cesar. Veja aqui embaixo um exemplo. Não tem título, como todas as poesias da atriz. É apenas a número 4.

Número 4

Quando faço o prato do meu homem

Encho de recheio pra ele gostar até o fim.

Quando ele vai chegar

Coloco grampo no cabelo

Ponho fronha branca pra ele dormir em paz

Passo bem o bife e a camisa dele

Arrumo as gavetas

Faço ele gozar

Depois ele ronca bem baixinho no meu ouvido

Quando ele me toca meu rio corre

E eu sou tanto que quase desapareço

e ele é tanto que quase não existe

É um homem livre

E eu sei disso.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Felicidade não Mora ao Lado

Recebo um e-mail de uma leitora que diz se chamar Pamela. Ela conta que já passou dos quarenta, que tem três filhos, um menino e duas meninas e um namorado ocasional, que é casado e tem problemas de alcoolismo. Pamela trabalha em uma empresa sólida e recebe um salário condizente com sua formação acadêmica e profissional. Sua mensagem é um tanto enigmática, na medida em que não traça uma linha do tempo entre o seu casamento e agora já separada há pelo menos 10 anos. Surpreende-me com a revelação de que não é mais feliz, que sua vida se resume em trabalhar e retornar ao lar. Diz que não sai de casa nunca. Que não gosta de música e tampouco sair para jantar, dançar, viajar e coisas desse tipo. Conta que se casou com o homem que gostava e que sua vida era plena em todos os aspectos: material, profissional e afetiva. Diz que o marido a procurava com uma intensidade avassaladora durante todo o tempo em que estavam juntos. Um dia, o marido foi transferido para uma cidade próxima e sua vida foi tomada por um imenso vazio. Inicialmente viam-se nos finais de semana e após algum tempo os encontros passaram a ser quinzenais e logo após mensais. Vieram as crianças e a vida rotineira de mãe e dona-de-casa longe do marido. O companheiro, continuava sua vida dupla, agora literalmente, pois, tinha ficado noivo de uma jovem de família tradicional, na cidade vizinha, estando até com casamento marcado. Soube da estripulia do marido através de terceiros. Arrasada, presa aos três filhos e à solidão conjugal, mergulhou em profunda depressão. A separação foi inevitável. Anos se passaram e ela, sem nunca mais ter se entregue a outro homem, aceita o marido de volta, após o fracassado casamento com a ninfeta rural e o fim do trabalho longe de casa. Jamais tocaram no assunto e a vida seguiu em frente, casa, marido, filhos e trabalho. O raio caiu duas vezes no mesmo lugar. O marido foi transferido novamente para uma pequena cidade próxima, e como da outra vez, ele partiu proferindo juras de amor. Medos e sobressaltos passaram a rondar o cotidiano de Pamela. O braseiro que tomava conta de sua cama em infindáveis madrugadas havia se transformado em uma planície de gelo. O macho que a procurava como que se quisesse seviciá-la diuturnamente, dormia placidamente ao seu lado, como um doce bebê. Como da outra vez, as visitas nos finais de semana passaram a ser mais esparsas e, como da outra vez, ele se apaixonou novamente. Só que agora tinha sido por um homem. Cidade pequena, o escândalo tomou conta das conversas nas pracinhas, botecos e salões de barbeiro. Ela arrasada, transtornada, humilhada, não conseguia entender como ele teve a coragem de trazer o amante para a própria cidade e com ele passar a viver uma vida dita conjugal. O que poderia ser mais cruel para uma mulher do que ser trocada por um homem, e pelo próprio marido!!! Pamela mergulhou novamente em seu mundo difuso, de nada, onde permanece até hoje... Casa, trabalho, filhos. Diz que talvez nunca se recupere de uma sina tão cruel. Foi criada para casar, ter filhos, cuidar do marido. Seu sonho era juntar a família aos domingos, depois da missa, para comerem macarrão e frango com quiabo. Não entende por que herdou um destino tão cruel. Passaram-se 10 anos e o ex-marido continua vivendo com seu parceiro, na mesma cidade, sem dar a mínima importância aos filhos. Pamela segue seu destino, trabalhando, namorando um homem casado, alcoólatra e violento. Cuida da casa e dos filhos, alguns já apresentando problemas de conduta. Não gosta de viajar, de sair para dançar, passear, vida social, enfim, diz que nunca mais será feliz.

Obama no Brasil

Não há dúvida que a eleição de Barack Obama foi um bálsamo e uma esperança para a distensão da política externa estadunidense. Porém, o que pudemos comprovar até o momento, foram passos tímidos em relação a temas cruciais que vão da agenda ambiental aos direitos humanos que têm como principal libelo acusatório a manutenção dos presos em Guantánamo; o irracional bloqueio a Cuba; a guerra do Iraque baseada em provas inexistentes; o massacre de civis no Afeganistão e o absurdo silêncio quase sexagenário da invasão chinesa ao Tibete. Falando em Direitos Humanos, vale a pena lembrar que os EUA ainda executam prisioneiros no chamado ‘corredor da morte’ com injeções letais e na cadeira elétrica. Na Líbia, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o interesse é similar ao do Iraque e a queda da dinastia Kadafhi é questão de tempo. No levante popular do Egito, por onde passa grande parte da economia árabe, inclusive o petróleo, através do Canal de Suez, os EUA só assumiram posição pró-rebelião popular ao saber do quadro irreversível da queda de Hosni Mubarak. Nossos irmãos do norte também continuam em débito com a humanidade ao negarem enfaticamente a assinatura do Protocolo de Kioto, que prevê a redução da emissão de gases do efeito estufa em, no mínimo, 5,2% no período entre 2008 e 2012, triste herança da Era Bush. Em relação à viagem pela América do Sul, sabemos que essa parte do continente nunca foi prioridade para a política externa dos EUA. Os novos cenários descortinados no Brasil, que têm a China como seu principal parceiro econômico, acenam com a licitação de caças para a FAB, energia nova através da exploração do pré-sal e investimentos em infraestrutura com a preparação da Copa de 2014 e Olimpíadas 2016. No complexo mosaico das relações econômicas bilaterais, o Brasil perde longe, com um déficit na balança comercial com os EUA da ordem de US$ 8 bilhões, o maior déficit comercial brasileiro. Por um outro lado, proporciona o maior superávit comercial aos Estados Unidos em relação a todos os países do mundo O que podemos esperar da visita de Obama? No campo das contendas comerciais Obama dificilmente reverterá no congresso estadunidense os subsídios agrícolas que de forma deletéria impedem a alavancagem do agribusiness nos países em desenvolvimento, principalmente os do etanol, que tanto interessa ao Brasil. Existem impeditivos reais como as barreiras tarifárias, não-tarifárias, quotas, proibições, restrições voluntárias de exportações, barreiras técnicas (relacionadas com regras de licenciamento, embalagens, volumes, ingredientes, rotulagem). Mecanismos de defesa comercial como o antidumping, direitos compensatórios e salvaguardas que são regras usuais do comércio internacional e podem afetar o acesso aos mercados. São cerca de 10 mil posições tarifárias e 144 países envolvidos na Organização Mundial de Comércio. Pendências históricas como a do algodão, medicamentos, alimentos e indústria aeronáutica, permeiam uma relação conflituosa entre os dois países. Nada que se consiga flexibilizar de um momento para o outro. Talvez a pretensão obsessiva do Itamaraty em ascender ao Conselho de Segurança da ONU seja um atrativo secundário da visita. Algo como os espelhinhos que os portugueses ofereciam aos indígenas ao aqui desembarcarem. Artifício que infla os brios nacionais e eleva nossa auto-estima em relação ao tabuleiro estratégico global. Nos Alagados, Vigário Geral ou Jardim Irene, ninguém entende para que serve o significado do assento na ONU, se não há saúde, emprego e educação de qualidade para o povo da periferia. Noves fora, e o desejo dos EUA em 'retirar' a Presidente Dilma do campo de ideologização de Lula na política externa, não se consegue visualizar um objetivo prático em visita tão pomposa e cercada de salamaleques. Aspas para a simpática visita à Cidade de Deus, onde 62% dos moradores são negros e para uma cinematográfica ida ao Cristo Redentor. Ademais, nada mais. Fica como exemplo, para a elite nacional que a origem e a cor da pele não são condicionantes para se ascender às mega estruturas de poder e que a democracia e a justiça social, podem estar em melhores mãos, quando se constroem oportunidades iguais para os grupos étnico-raciais que compõem a diversidade da espécie humana. Na verdade, a grande comemoração no Rio foi a transferência do discurso do ilustre visitante, que seria em praça pública, para um exclusivíssimo e disputado convescote no Teatro Municipal. Com a Cinelândia livre do fechamento sintomático por parte da neurótica segurança de Obama, os cariocas puderam tomar seus chopes sossegados no Bar Amarelinho, tradicional espaço de encontros etílico-político-poéticos, que reina impávido naquele pedaço do Rio de Janeiro.