Amauri Queiroz

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mulher na Presidência?


Há duas formas principais de estarmos presentes no mundo: pelo trabalho e pelo cuidado.
Como somos seres sem nenhum órgão especializado, à diferença dos animais, temos que trabalhar para sobreviver. Vale dizer, precisamos tirar da natureza tudo o que precisamos. Nessa diligência usamos a razão prática, a criatividade e a tecnologia. Aqui precisamos ser objetivos e efetivos, caso contrário sucumbimos às necessidades.
Na história humana, pelo menos no Ocidente, instaurou-se a ditadura do trabalho. Este mais do que obra foi transformado num meio de produção, vendido na forma de salário, implicando concorrência e devastação atroz da natureza e perversa injustiça social. Representantes principais, mas não exclusivos, do modo de ser do trabalho são os homens. A segunda forma é o cuidado. Ele tem como centralidade a vida e as relações interpessoais e sociais.
Todos somos filhos e filhas do cuidado, porque se nossas mães não tivessem tido infinito cuidado quando nascemos, algumas horas depois teríamos morrido e não estaríamos aqui para escrever sobre estas coisas.
O cuidado tem a ver mais com sujeitos que interagem entre si do que com objetos a serem gestionados. O cuidado é um gesto amoroso para com a realidade.
O cuidado não se opõe ao trabalho. Dá-lhe uma característica própria que é ser feito de tal forma que respeita as coisas e permite que se refaçam.
Cuidar significa estar junto das coisas protegendo-as e não sobre elas, dominando-as. Elas nunca são meros meios. Representam valores e símbolos que nos evocam sentimentos de beleza, complexidade e força.
Obviamente ocorrem resistências e perplexidades. Mas elas são superadas pela paciência perseverante. A mulher no lugar da agressividade, tende a colocar a convivência amorosa. Em vez da dominação, a companhia afetuosa. A cooperação substitui a concorrência. Portadoras privilegiadas, mas não exclusivas, do cuidado são as mulheres.
Desde a mais remota antiguidade, assistimos a um drama de consequêncas funestas: a ruptura entre o trabalho e o cuidado. Desde o neolítico se impôs o trabalho como busca frenética de eficácia e de riqueza.
Esse modo de ser submete a mulher, mata o cuidado, liquida a ternura e tensiona as relações humanas. É o império do androcentrismo, do predomínio do homem sobre a natureza e a mulher.
Chegamos agora a um impasse fundamental: ou impomos limites à voracidade produtivista e resgatamos o cuidado ou a Terra não aguentará mais.
Sentimos a urgência de feminilizar as relações, quer dizer, reintruzir em todos os âmbitos o cuidado especialmente com referência às pessoas mais massacradas (dois terços da humanidade), à natureza devastada e ao mundo da política.
A porta de entrada ao universo do cuidado é a razão cordial e sensível que nos permite sentir as feridas da natureza e das pessoas, deixar-se envolver e se mobilizar para a humanização das relações entre todos, sem descurar da colaboração fundamental da razão intrumental-analítica que nos permite sermos eficazes. É aqui que vejo a importância de podermos ter providencialmente à frente do governo do Brasil uma mulher como Dilma Rousseff. Ela poderá unir as duas dimensões do trabalho que busca racionalidade e eficácia (a dimensão masculina) e do cuidado que acolhe o mais pobre e sofrido e projeta políticas de inclusão e de recuperação da dignidade (dimensão feminina).
Ela possui o caráter de uma grande e eficiente gestora (seu lado de trabalho/masculino) e ao mesmo tempo a capacidade de levar avante com enternecimento e compaixão o projeto de Lula de cuidar dos pobres e dos oprimidos(seu lado de cuidado/feminino). Ela pode realizar o ideal de Gandhi: “política é um gesto amoroso para com o povo”.
Neste momento dramático da história do Brasil e do mundo é importante que uma mulher exerça o poder como cuidado e serviço.
Ela, Dilma, imbuida desta consciência, poderá impor limites ao trabalho devastador e poderá fazer com que o desenvolvimento ansiado se faça com a natureza e não contra ela, com sentido de justiça social, de solidariedade a partir de baixo e de uma fraternidade aberta que inclui todos os povos e a inteira a comunidade de vida.

Leonardo Boff

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A CNBB E AS ELEIÇÕES




"Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista."
(Dom Hélder Câmara Fundador da CNBB)

A CNBB que tenho visto envolvida na partidarização das eleições no Brasil não é a CNBB que conheço e que por certo período de tempo me abrigou generosamente como coordenador de um projeto de inclusão produtiva na Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro. Trabalhando nesta instituição, aprendemos como é grande o amor de Cristo por nós e quanto foi emblemática Sua santa decisão de entregar a própria vida para nos salvar.
Aprendi na CNBB que a única opção de todos os cristãos e os não cristãos de boa vontade é a opção pelos mais vulneráveis, pelos mais pobres, pelos mais necessitados. É ali que está o manto de Jesus Cristo, é ali que sentimos o chamamento de Sua palavra, é ali que conseguimos compreender a comunhão a consagração e a ressurreição.
A CNBB que conheço e aprendi a amar e respeitar é aquela que com a Cáritas, com as pastorais sociais, com as comunidades eclesiais de base, com os textos e encontros religiosos, sempre buscou levar conforto e soluções humanas para os mais desvalidos da sociedade, para aqueles que têm como cotidiano o infortúnio, a fome, a falta de abrigo e o desamor dos insensíveis.
A CNBB a qual orgulhosamente servi e que admiro e aplaudo é composta por uma legião incontável de amorosos e vigorosos servos de Cristo, que nunca repousam em suas infatigáveis missões religiosas e sociais, sempre voltadas para a elevação e para a promoção humana.
A CNBB da qual todos nós brasileiros nos orgulhamos é aquela que combateu duramente a ditadura militar brasileira, que como em apostolado contribuiu para a criação de diversos movimentos sociais, apoiando incondicionalmente a Economia Solidária, o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, o movimento dos pescadores artesanais, os Sem Teto, o Povo da Rua, as Mulheres Marginalizadas. A minha CNBB é a que leva uma palavra de alívio às pessoas encarceradas, protege e cuida de meninas e meninos de rua, entre tantas outras ações com uma nobreza sem par.
É com essa CNBB que vou dormir todas as noites e é com ela que desperto todos as manhãs, procurando de alguma maneira servir aos mais necessitados, empregando o conhecimento que adquiri para os que mais precisam. A população brasileira não deve se confundir com pessoas que tentam utilizar o nome de tão nobre instituição para fins pouco confessáveis.
Sou admirador da CNBB que D. Helder Câmara criou, cunhando o que hoje se classifica como inclusão social. Sou admirador de Frei Tito, D. Luciano Mendes de Almeida, Frei Betto, Leonardo Boff, Padre Josimo, Irmã Dorothy, Padre Ricardo Resende, Dom Thomaz Balduíno, Dom Mauro Morelli, Dom Pedro Casaldáliga e D. Paulo Evaristo Arns entre outras almas santas, que dedicam e dedicaram suas vidas à promoção dos pobres e dos excluídos, assim como fez Jesus Cristo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010



Amor Eterno – O Novo Otelo do Século 21

Fernanda me escreve para pedir aconselhamentos sobre sua situação. Diz que está sofrendo bastante e que pensa em terminar seu casamento que já dura uma década. Motivo ela tem mais que de sobra, o ciúme doentio do marido.
Fernanda me pede conselhos que talvez eu não saiba nem tenha conhecimentos científicos para explicá-los. Mas alguma coisa sobre o ciúme podemos conversar informalmente.
O ciúme é tema de enorme bibliografia e de debates em todos os meios de comunicação. Mas é na academia, nos centros de ensino e pesquisa que conseguimos encontrar alguma teoria plausível sobre o assunto. Se é que teoria surte algum efeito nesses casos.
O início do casamento foi um paraíso. Fernanda nunca havia imaginado que existisse felicidade tamanha. Amor, sexo e dedicação eram componentes constante entre ambos, que mergulhavam de olhos fechados, um na alma do outro, como se nunca fossem retornar à superfície.
Sergio sempre foi um excelente companheiro. Atendia a todos os desejos de Fernanda, mesmo os mais pueris. Trabaljava em uma excelente empresa e gozava de ótima reputação profissional. Porém, não possuía ambição alguma, não entendia que o futuro se constrói a partir do hoje, com a experi~encia adquirida no passado.
O tempo foi passando e Sergio foi sendo tragado pelo redemoinho inexorável da vida. Defasado profissionalmente, desatualizado socialmente, transformou-se num espectro perto do que era quando Fernanda o conheceu. Seu sobrepeso e sua barriga proeminente delatavam a falta de preocupação com seu corpo e deletavam pouco à pouco o desejo insaciável de sua mulher pelo corpo tão bonito que outrora possuira. O sexo foi rareando cada vez mais. Sua aparência desleixada e sua falta de compromisso com a vida minavam a relação com Fernanda, que às custas de dietas e caminhadas conseguia manter seu corpo e sua forma física.
O golpe de misericórdia foi dado quando Sergio foi comunicado sobre a dispensa da empresa. Seu trabalho de anos que agora seria ocupado por um jovem talentosos e ambicioso, composição infalível para se sobreviver no capitalismo.
Como não podia ficar sem trabalho, saiu em busca de um emprego que infelizmente nunca aparecveu. Quarentão, barrigudo e desanimado, usou sua indenização para comprar uma barraca de cachorro quente, tornando-se empreendedor por consequência.
Fernanda conta que sempre esteve a seu lado. Nunca o abandonou, mesmo nas noites de grande angústia, quando ela ardia de desejo e ele passava a madrugada acordado, reclamando da vida, de tudo e de todos, patético, disfuncional.
Meses após o terremoto da demissão e do fracasso do empreendimento de cachorro-quente, se iniciou em Sergio um profunda transformação. Tornou-se arredio e quase não procurava Fernanda. Vivia defronte ao aparelho de TV, assistia do desenho animado aos cultos evangélicos eletrônicos nos avançados horários noturnos.
Passou a perseguir Fernanda. No início de maneira mais discreta e com o passar do tempo de maneira mais ostensiva. Até que um dia a agrediu. Fernanda conta que não sabia qual a dor é mais doída, se a física ou a espiritual. Tantos anos de total dedicação e amor por aquele homem e após todo esse tempo recebe uma bofetada no rosto, para logo após ser chamada de prostituta e vulgar. Seu mundo caiu.
Somente a grandiosidade da mulher pode perdoar um gesto tão aviltante como esse. Continuou ao lado do marido, que não era mais o homem que sempre amou, enquanto que ao mesmo tempo, ele jamais teria ao seu lado aquela mulher que tanto se dedicou e renunciou.
Passou a estudar o tema e aprendeu que o cíume é principalmente provocado pela sensação antecipada ou delirante da perda física e espiritual do outro. Ou então com a idéia da perda da posse soberana. Quando torna-se patológico, as dúvidas ultrapassam uma linha imaginária que nos separa da fantasia, da verdade e da certeza. O ciumento patológico é levado à verificação de suas dúvidas delirantes, arguindo a outra parte sobre os lugares onde esteve, violando correspondências, ouvindo conversas pela extensão ou até mesmo grampendo o telefone de casa, revolve bolsas e bolsos, cheira a roupa do íntima da parceira e vice-e-versa, contrata detetives, espreita, desconfia, vive em um mundo de loucuras, onde nunca há alivio para os seus sentimentos doentios.
Fernanda sentiu que nunca mais teria paz em sua vida. Sergio havia se tornado um ciumento patológico. Ao não trabalhar e agora depender do salário de Fernanda, buscava evidências todos os dias de uma possível traição. Fernanda chegou ao absurdo de mentir e confessar que teve uma conversa mais picante com um amigo de trabalho para que pudesse dormir em paz. Passou uma noite de inferno. Sergio nunca estava satisfeito com as explicações. Passou a aparecer de surpresa na saída do trabalho de Fernanda. Esgueirando-se por trás das árvores, como uma serpente, ansiando encontrar sua mulher com outro.
Fernando sofre de Ciúme Patológico e Fernanda continua ao seu lado, agora fazendo terapia para recuperar sua auto-estima, perdida no trauma da demissão do emprego onde imaginou que só sairia aposentado. O casal ainda está juntando os cacos dos corações que despedaçaram nos paredões do destino, mas estão ali, unidos e firmes, buscando um amanhecer de esperança.
Fernanda encerra sua mensagem como um libelo de tolerância e de amor verdadeiro. Agora sabe que o amará eternamente, pois, só um amor eterno consegue sobreviver a uma realidade tão dura.




terça-feira, 5 de outubro de 2010

Amor, estranho amor....


"O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando,
que nem o meu nos seus braços" (Djavan)
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Brenda escreve sua mensagem com certo temor. Posso sentir a tensão nas entrelinhas. Parece que tornando pública sua situação, possa se sentir mais confortável. Mas não é nada fácil, carregar a pesada culpa que traz consigo.
Ela inicia sua narrativa dizendo que sempre foi uma pessoa tranqüila, com muita paz de espírito e que jamais teve qualquer tipo de relacionamento conturbado com as pessoas, homens ou mulheres. Casou com o homem que amava e teve dois filhos maravilhosos de 3 e 6 anos, que iluminam sua vida. O casamento acabou e o tempo lhe estampou pequenas marcas em sua vida. Muito bonita e até mesmo cobiçada pelos homens, sentia-se insegura ao ver sua juventude escapando lentamente sem que nada pudesse ser feito.
A vida de Brenda entrou em um ciclo de rotina, onde tudo é nada e nada é tudo. Aborrecia-se com pequenas coisinhas e às vezes ignorava solenemente assuntos de extrema importância. Era o sinal de que algo precisava mudar em sua vida, só que nada mudava e a rotina com a casa e com os filhos era como uma sentença a ser cumprida.
Finalmente um fato novo surgiu em sua vida. A irmã mais nova, Cecília, que tinha 23 anos, viria para morar com ela. Ajudaria com a casa e as crianças, enquanto estudava e trabalhava. Brenda estava felicíssima, pois, teria mais tempo para si e poderia, quem sabe, encontrar um novo amor.
A chegada da irmã trouxe muita felicidade para todos. Brenda ousava até ir ao cinema com amigas do bairro e vez em quando tomar umas cervejinhas com os amigos na padaria da esquina. Sua irmã, muito séria e responsável, cuidava da casa e das crianças nessas horas. Tudo corria às mil maravilhas.
Certo dia a irmã trouxe uma verdadeira novidade. Tinha arrumado um namorado. Um amigo de trabalho, boa pessoa, sem vícios, querendo compromisso sério. Trouxe o rapaz para que todos o conhecessem.
No início Brenda não gostou muito dele, além do quê, passaria a freqüentar a casa, retirando a privacidade que ela tanto prezava. Particularmente aborrecia-lhe a idéia de ter que passar a andar vestida pela casa durante as quentes e desconfortáveis noites de verão.
A irmã de Brenda era linda e jovial. Loira, olhos verdes, corpo torneado naturalmente, Cecília era a irmã mais nova e a mais bonita. Seu namorado Fred era alto e moreno. Corpo trabalhado nas academias de musculação fazia suspirar as meninas do bairro.
Era um sujeito boa praça, possuía um bom emprego, carro novo, e estava sempre de bom humor. Gostava de Cecília, respeitando-a e lhe sendo fiel. Não era um amor ardente. Talvez esse ele nunca tivesse sentido. Estava seguro com Cecília. Sabia que ela poderia ser uma ótima esposa e dedicada mãe dos seus filhos.
A vida é uma autêntica caixinha de surpresas. Brenda confessa que jamais imaginou envolver-se com Fred, apesar na proximidade do cotidiano, e sequer o olhava mais detidamente, quando tirava a camisa dentro de casa para executar algum serviço rotineiro do lar.
Tornaram-se amigos e às vezes ficavam até altas horas da noite conversando sobre diversos temas, sempre agradáveis, eram momentos deliciosos. Cecília geralmente se recolhia cedo, pois acordava de madrugada para trabalhar. Brenda e Fred construíram uma rotina noturna tão intensa que já não conseguiam mais viver sem ela. Apaixonaram-se.
Brenda conta que pensava haver enlouquecido. Mal se alimentava, não cuidava mais da casa e nem dava conta da criação dos filhos. Um fogo intenso a consumia por dentro. Diuturnamente seu corpo vivia em brasas. Sua mente migrou para uma dimensão onde só os amantes ensandecidos conseguem sobreviver. Não podia ser real.
Conta que lutaram por meses, contra essa heresia. Passou a visitar a mãe com mais freqüência e dormir por lá nos finais de semana. Fugia de Fred e sentia que quanto mais fugia mais se ligava a ele, mais precisava dele, na mais pura e deliciosa insensatez dos amantes.
Não se lembrava há quanto tempo tinha tido a última noite de amor. Havia se separado há quatro anos, e de lá para cá, ficou duas vezes com o ex-marido, após visitas noturnas às crianças e de umas taças de vinho além da conta. Brenda havia esquecido como era queimar de desejo.
Fred não olhava mais Cecília nos olhos. Vivia irrequieto e demonstrava uma inconstância incomum. Cecília fingia nada perceber, mas, sabia que as noites em que adormecia e deixava os dois a sós, estavam germinando uma flor que ela não poderia colher. Apaixonada por Fred sabia que nada podia fazer, a força revolucionária da paixão varria a vida dos três, sem dó nem piedade. Foi apenas questão de tempo. Brenda conta que se entregou de corpo e alma ao cunhado, numa noite chuvosa de domingo. Estavam sós, as crianças tinham ido com Cecília para a casa da avó. Um imenso temporal assolou a cidade. Estavam os dois tentando varrer a água que teimava em entrar pelo vão inferior das portas, quando a luz apagou e os dois, molhados e ofegantes, se tocaram. O estrondo de um raio fez cumprir a anunciada profecia e fez Brenda se proteger e aninhar-se nos braços de Fred.
Eletrizante, foi uma situação eletrizante, ela me relata. Foi como se o céu houvesse desabado e todas as direções mudado de rumo. Foi tão intenso que o tempo passou e não se percebeu que o dia havia amanhecido. Exaustos e saciados como dois animais, permaneciam unidos como se tivessem passado a vida inteira juntos. Uma onda de ternura e amor cobriu os dois amantes com o nascer da aurora. Um final épico, como nas grandes óperas como a Aída de Verdi, quando ao fim do quarto ato, o guerreiro Radamés é condenado por traição e levado para o interior de sua cripta, onde se despede da vida e da lembrança de sua amada para sempre. Então aparece Aida, que conseguiu entrar furtivamente no túmulo para morrer ao seu lado. A escrava egípcia e ex-princesa etíope encontra a morte nos braços do seu amado, encerrando a epopéia.
Para Brenda o mundo poderia terminar ali, naquele exato momento. Pois morreria feliz como Aída, nos braços do seu amado.
Termina sua mensagem dizendo que depois disso vinte anos se passaram. A paixão durou exatamente um ano. Brenda chegou a engravidar de Fred mas perdeu a criança sem que ninguém soubesse. Hoje é funcionária pública, os filhos cresceram e se foram. Ela vive sozinha com suas lembranças. Sua irmã Cecília que oficialmente nunca soube de nada, está casada e feliz com a família. Fred desapareceu depois deste incrível ano de paixões e luxúrias que viveram. Nunca mais soube notícias dele, que ainda hoje aquece seus pensamentos nas noites chuvosas de verão, entre doses solitárias de vinho.
Brenda carrega a culpa de ter tirado o grande amor da vida de sua irmã e ao mesmo tempo tê-lo conquistado e obrigado a renunciá-lo por conta das convenções da sociedade e da família.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um dia te perdoarei por te trair...

“O amor, no meu entender, devia surgir de repente,
com ruídos e fulgurações,
tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve,
arranca as vontades como folhas
e arrebata para o abismo o coração inteiro.”
(
Gustave Flaubert)
Recebo o e-mail de uma leitora que diz ser casada há 25 anos. Seu nome fictício é Clara. Ela enfatiza que vive em harmonia e afirma amar o marido profundamente. Mesmo assim, eventualmente, costuma sair e fazer amor fora do casamento. Sente-se dividida entre o que considera ser certo e o que conclama ser justo. O certo, ela diz, seria ser fiel ao marido, independente da situação. O justo, sentencia, é ser feliz e dar vazão à sua necessidade de ser valorizada e querida, mas além de tudo, cortejada e desejada.
Ela me diz que sempre teve uma vida tranqüila, talvez rotineira demais, mesmo no período de adolescência. Poucos envolvimentos, cidade pequena, namorado amigo de infância, flertes na pracinha, noivado, casamento, filhos, pão de queijo e missa. Tudo muito tradicional.
Ela conta que a partir do segundo filho as coisas começaram a mudar de rumo em sua vida. O marido invariavelmente a deixava só com os filhos nos finais de semana para ficar com os amigos no dogmático futebol e na essencialidade do boteco. Ela, filha de família tradicional, cumpria religiosamente o papel que a sociedade lhe destinou: cuidar da casa, dos filhos e do marido. A vaidade e a auto-estima desvaneceram-se nas brumas do tempo. O brilho do olhar tornou-se difuso e sem vida. No papel de esposa amante, nada de alegria, nada de harmonia, nada de fantasia. Somente o sexo invariavelmente obrigado, insuficiente, geralmente nauseabundo, cheirando à álcool e à atmosfera de botequim.
Viveu assim durante duas décadas, forçando o sorriso para a sociedade, fingindo orgasmos e criando os filhos. Vivia como uma sombra, aliás, era a sua própria sombra. Um estranho fantasma, que assombrava principalmente à si própria.
Um certo dia, enquanto flanava absorta pela cidade, fazendo compras, quando percebeu que alguém lhe olhava de maneira insistente. Era um amigo dos tempos de ginasial, agora com alguns fios grisalhos nas têmporas. Maduro mas muito bonito, mantinha o mesmo sorriso cativante de outrora. Encontraram-se no hortifruti e entre alfaces e rúculas um raio de fatalidade caiu sobre os dois. Foi como uma explosão atômica, um vigoroso vulcão jorrando sua lava incandescente para os céus, um tsunami emocional, o rompimento de um casulo escuro e úmido, onde uma larva amorfa esteve presa por longo tempo em hibernação, despertando então travestida em uma multicolorida e esvoaçante borboleta, abrindo suas asas à luz do sol e ao calor da vida. Willian Shakespeare
diz que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar. E assim aconteceu.
Clara então passa a viver um conflito interno entre seu recém descoberto amor entremeado de emoção e desejo e um enorme sentimento de culpa. Sentada á mesa com à família, às vezes sentia-se suja e indigna de sua família, por estar se entregando de corpo e alma ao seu amante. Tentava esconder suas mudanças de comportamento e sua felicidade, sem falar da onda de ternura e amor que sentia pelo homem que a resgatou de volta para a luz. Embriagou-se com o vinho do amor, para o qual não existe antídoto. Para não morrer, dizia Toulouse-Lautrec, devemos sorvê-lo até a última gota.
A vida de Clara segue normal e seu marido de nada desconfia. Envolvido com o futebol e a turma do boteco, aliado ao sentimento de posse e domínio que sempre nutriu pela esposa, jamais imaginaria que ela ama outro homem e que é uma chama viva quando a ele se entrega. Sim, entrega total e verdadeira. Talvez por isso tenha-se originado o termo traição: do latim traditione, que quer dizer, entrega. Clara, nossa Madame Bovary das Vertentes, não se sente forte o suficiente como mulher, nem confiante o bastante como amante para dar fim ao seu casamento. Segue em sua vida dupla: entediando-se em casa e realizando seus mais profundos desejos através das maravilhosas e sofisticadas fantasias com seu amante. Quem ousa atirar a primeira pedra?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Livreiro de Cabul e as Invisíveis Burcas Brasilianas

No excelente livro “O Livreiro de Cabul” da norueguesa Asne Seierstad, vive-se a dura realidade da vida cotidiana do Afeganistão, país devastado por sucessivas e intermináveis guerras. As contradições afegãs e um complexo e tolhido universo feminino, nos faz refletir sobre a distância cultural entre nossas sociedades enquanto que, ao mesmo tempo, nos remete para situações muito próximas em famílias brasileiras.
Em certa passagem do livro, o jovem Karim, Jornalista e órfão de pai e mãe se apaixona por Leila, filha caçula de Bibi Gul, matriarca e mãe de 13 filhos. Bibi Gul, por ser viúva, vive com seu irmão, Sultan Khan o patriarca da família que é casado com duas esposas. As ordens despóticas de Sultan são indiscutíveis e Leila, que funciona como empregada doméstica de todo o clã, sonha em se casar e ter sua própria família.
O Afeganistão tem uma cultura muito particular, o conservadorismo afegão vai além do uso da ‘burca’ pelas mulheres. Passa pela submissão existencial onde se inclui as tarefas domésticas diárias e extenuantes, transita pela exclusão institucional em relação ao mercado de trabalho, por não poder possuir amigos do sexo masculino e ao menos estudar ou conversar com eles. As afegãs acostumaram-se a ver o mundo através das rendas das ‘burcas’, onde o calor e o desconforto extinguem toda a beleza e frescor do existencial do feminino. Portanto, um bom casamento que a liberte da pesada escravidão familiar é tudo que uma mulher afegã pode sonhar. Karim e Leila amam-se desesperadamente sem nunca terem ao menos conversado um com o outro. Sonham sonhos secretos de viverem juntos por toda a vida. Mas para isso as famílias precisam autorizar o enlace, é assim na sociedade afegã. Numa rara oportunidade que têm de se aproximar um do outro, Karim e Leila travam um diálogo surreal numa repartição pública de Cabul:

- Qual é sua resposta?

- Você sabe que eu não posso te responder -, ela diz.

- Mas o que você quer?

- Você sabe que eu não posso querer nada.

- Mas você gosta de mim?

- Você sabe que eu não posso ter opinião sobre isto.

- Você vai aceitar se eu pedir a sua mão?

- Você sabe que não sou eu quem decide.

- Você quer me encontrar de novo?

- Não posso.

- Por que não pode ser um pouco mais gentil? Você não gosta de mim?

- A minha família é quem decide se eu gosto de você ou não.

Karim e Leila jamais se viram novamente. Decepcionado com o ocorrido, o jovem decide seguir a carreira religiosa e se tornar um Mulá. Leila continuou em sua vida de doméstica da família e o livro não avança mais do que isso sobre os dois.
Piores que as ‘burcas’ afegãs são as ‘burcas brasileiras’, onde, mulheres são tolhidas de enxergar o mundo com seus próprios olhos para serem obrigadas a olhar com o olhar da família ou do marido. É fato corriqueiro hoje em dia, que a mulher primeiro avalie no que pensará a sociedade, para depois tomar alguma decisão.
Nas coisas do amor é ela quem mais sofre. Muitas vezes, como as afegãs, casam para deixar uma família exploradora e sem amor. Melhor sofrer em sua própria casa que na de outrem. Passará a vida (geralmente) por trás de uma ‘burca invisível’, sem atitude própria, sem opinião, fingindo orgasmos e erotismo, sem direito ao trabalho e assentir calada ao cheiro de álcool e do perfume barato que ele trás impregnado das outras mulheres.
Como no Afeganistão, as mulheres brasileiras que envergam uma burca invisível, usufruem de raros momentos de alegria. Na maioria dos casos quando visitam a família e a mãe, matriarca sempre tão generosa e acolhedora.
Gustav Klimt, pintor simbolista austríaco nascido no século XIX emoldurou de maneira magnífica em sua tela “O Beijo”, a posição da mulher que aceita o beijo do homem que a subjuga sem porém se entregar. No quadro, que encerra a ‘art noveau’ vienense para dar lugar ao expressionismo, se sente a atmosfera do prazer atingido, sem expressar porém qualquer tipo de sublimação do amor por parte da mulher.
O universo da mulher é infinitamente mais rico e complexo que o masculino. Então, quando o homem enfrenta algo desconhecido e grandioso, como a alma feminina, geralmente rejeita, recua ou agride. Sendo assim, torna-se mais fácil e seguro para os homens, pô-las a vestir a burca invisível do autoritarismo, do que procurar entendê-las, humildemente, no poder e plenitude do maravilhoso universo que elas possuem.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Édipo Gritante
O que fazer quando ele vê na mulher uma outra mãe?

E aqueles que foram vistos dançando,
foram julgados insanos por aqueles
que não podiam escutar a musica.
(Friedrich Nietzsche)

Um casal tem por obrigação de "demarcar seu território" em relação às suas famílias - do homem e da mulher, respectivamente. Família não se pode escolher e, por isso, somos submetidos muitas vezes à ditadura de sogras, irmãs, cunhados, primos, primas, etc.
O sentimento e a unidade da família só têm sentido quando for para iluminar os lares de felicidade. A vida é muito dura e em muitas vezes, nos momentos em que estamos mais fragilizados, parte da família, tentan nos culpar, nos diminuir, nos magoar.
Parece que querem nos jogar de vez no precipício. Agora, por outro lado, fugir de uma realidade que está posta, pode ser um "tiro pela culatra". No caso feminino, a mulher geralmente é cobrada, por força atávica, pelo mundo matriarcal, de "roubar" o varão da família e querê-lo só para si. Para algumas famílias é uma grande blasfêmia o ato de “tirar o menino de casa”. E você mulher, precisará estar atentíssima, pois, havendo uma crise qualquer, poderá ser cobrada por ter propiciado a separação da família e usurpado o filho da mãe (com ou sem trocadilho, fiquem à vontade...).
As decisões devem ser pensadas para que as cobranças futuras, não sejam um fardo pesado demais para se carregar. Por incrível que pareça ainda se vê no mundo moderno o filho que sofre forte influência de mãe e, quando resolve tentar ser um homem independente, saindo de casa e construindo um lar, geralmente com uma mulher, bate uma síndrome de Édipo daquelas de arrasar quarteirão.
Na tragédia de Sófocles, a obsessão libidinosa do filho pela madrasta, Jocasta, leva Édipo a matar seu pai Laio, para que possa enfim desposá-la. Ao descobrir que Jocasta era sua mãe verdadeira, fura os próprios olhos e Jocasta dá cabo da própria vida, encerrando a tragédia. Sófocles apresenta-se cada vez mais atual, se fizermos uma reflexão profunda sobre as relações triangulares entre mães, filhos, esposas e mulheres. Para aumentar o caos, Carl Jung nos brinda com Complexo de Electra que analisa a aguerrida disputa entre mães e filhas pelo amor do pai e esposo. É outro mito grego baseado em Electra, filha de Agamenon que juntamente com seu irmão tramou a morte da mãe Clitemnestra, para vingar a morte do pai, pelo qual era apaixonada. Nosso herói então, para aliviar a culpa de ter se separado da mãe, resolve cobrar da companheira, sua mulher, a postura da mãe protetora e de suas idiossincrasias edipianas. Na verdade não digeriu bem a “separação” e o afastamento da mãe. Apesar de nos primeiros momentos ter conseguido abafar o Édipo que grita em suas entranhas.
Ele precisa de outra mãe. E agora? Você é mulher, não é mãe... Talvez esteja até precisando de um pouquinho de pai! E o chorão ali, querendo colo... Reclamando que o frango tá sem sal, que a camisa não está bem passada...que a mãe dele fazia assim e assado... Putz...Às vezes o problema está dentro da gente e por diversos motivos, ficamos repassando-o para outras pessoas. É importante avaliar até que ponto, as coisas são isso mesmo. Família não tem poder para acabar com uma relação completa e plena. O que acaba com o amor a dois é desamor... Hábitos destrutivos como a infidelidade, o desrespeito, a rejeição, não ouvir a companheira, a imaturidade para criar os filhos, falta de compromisso com o outro. Um conjunto de artimanhas que certamente são estratégias do Édipo gritante que dará fim à relação amorosa tão sonhada e desejada.