Amauri Queiroz

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Amor, estranho amor....


"O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando,
que nem o meu nos seus braços" (Djavan)
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Brenda escreve sua mensagem com certo temor. Posso sentir a tensão nas entrelinhas. Parece que tornando pública sua situação, possa se sentir mais confortável. Mas não é nada fácil, carregar a pesada culpa que traz consigo.
Ela inicia sua narrativa dizendo que sempre foi uma pessoa tranqüila, com muita paz de espírito e que jamais teve qualquer tipo de relacionamento conturbado com as pessoas, homens ou mulheres. Casou com o homem que amava e teve dois filhos maravilhosos de 3 e 6 anos, que iluminam sua vida. O casamento acabou e o tempo lhe estampou pequenas marcas em sua vida. Muito bonita e até mesmo cobiçada pelos homens, sentia-se insegura ao ver sua juventude escapando lentamente sem que nada pudesse ser feito.
A vida de Brenda entrou em um ciclo de rotina, onde tudo é nada e nada é tudo. Aborrecia-se com pequenas coisinhas e às vezes ignorava solenemente assuntos de extrema importância. Era o sinal de que algo precisava mudar em sua vida, só que nada mudava e a rotina com a casa e com os filhos era como uma sentença a ser cumprida.
Finalmente um fato novo surgiu em sua vida. A irmã mais nova, Cecília, que tinha 23 anos, viria para morar com ela. Ajudaria com a casa e as crianças, enquanto estudava e trabalhava. Brenda estava felicíssima, pois, teria mais tempo para si e poderia, quem sabe, encontrar um novo amor.
A chegada da irmã trouxe muita felicidade para todos. Brenda ousava até ir ao cinema com amigas do bairro e vez em quando tomar umas cervejinhas com os amigos na padaria da esquina. Sua irmã, muito séria e responsável, cuidava da casa e das crianças nessas horas. Tudo corria às mil maravilhas.
Certo dia a irmã trouxe uma verdadeira novidade. Tinha arrumado um namorado. Um amigo de trabalho, boa pessoa, sem vícios, querendo compromisso sério. Trouxe o rapaz para que todos o conhecessem.
No início Brenda não gostou muito dele, além do quê, passaria a freqüentar a casa, retirando a privacidade que ela tanto prezava. Particularmente aborrecia-lhe a idéia de ter que passar a andar vestida pela casa durante as quentes e desconfortáveis noites de verão.
A irmã de Brenda era linda e jovial. Loira, olhos verdes, corpo torneado naturalmente, Cecília era a irmã mais nova e a mais bonita. Seu namorado Fred era alto e moreno. Corpo trabalhado nas academias de musculação fazia suspirar as meninas do bairro.
Era um sujeito boa praça, possuía um bom emprego, carro novo, e estava sempre de bom humor. Gostava de Cecília, respeitando-a e lhe sendo fiel. Não era um amor ardente. Talvez esse ele nunca tivesse sentido. Estava seguro com Cecília. Sabia que ela poderia ser uma ótima esposa e dedicada mãe dos seus filhos.
A vida é uma autêntica caixinha de surpresas. Brenda confessa que jamais imaginou envolver-se com Fred, apesar na proximidade do cotidiano, e sequer o olhava mais detidamente, quando tirava a camisa dentro de casa para executar algum serviço rotineiro do lar.
Tornaram-se amigos e às vezes ficavam até altas horas da noite conversando sobre diversos temas, sempre agradáveis, eram momentos deliciosos. Cecília geralmente se recolhia cedo, pois acordava de madrugada para trabalhar. Brenda e Fred construíram uma rotina noturna tão intensa que já não conseguiam mais viver sem ela. Apaixonaram-se.
Brenda conta que pensava haver enlouquecido. Mal se alimentava, não cuidava mais da casa e nem dava conta da criação dos filhos. Um fogo intenso a consumia por dentro. Diuturnamente seu corpo vivia em brasas. Sua mente migrou para uma dimensão onde só os amantes ensandecidos conseguem sobreviver. Não podia ser real.
Conta que lutaram por meses, contra essa heresia. Passou a visitar a mãe com mais freqüência e dormir por lá nos finais de semana. Fugia de Fred e sentia que quanto mais fugia mais se ligava a ele, mais precisava dele, na mais pura e deliciosa insensatez dos amantes.
Não se lembrava há quanto tempo tinha tido a última noite de amor. Havia se separado há quatro anos, e de lá para cá, ficou duas vezes com o ex-marido, após visitas noturnas às crianças e de umas taças de vinho além da conta. Brenda havia esquecido como era queimar de desejo.
Fred não olhava mais Cecília nos olhos. Vivia irrequieto e demonstrava uma inconstância incomum. Cecília fingia nada perceber, mas, sabia que as noites em que adormecia e deixava os dois a sós, estavam germinando uma flor que ela não poderia colher. Apaixonada por Fred sabia que nada podia fazer, a força revolucionária da paixão varria a vida dos três, sem dó nem piedade. Foi apenas questão de tempo. Brenda conta que se entregou de corpo e alma ao cunhado, numa noite chuvosa de domingo. Estavam sós, as crianças tinham ido com Cecília para a casa da avó. Um imenso temporal assolou a cidade. Estavam os dois tentando varrer a água que teimava em entrar pelo vão inferior das portas, quando a luz apagou e os dois, molhados e ofegantes, se tocaram. O estrondo de um raio fez cumprir a anunciada profecia e fez Brenda se proteger e aninhar-se nos braços de Fred.
Eletrizante, foi uma situação eletrizante, ela me relata. Foi como se o céu houvesse desabado e todas as direções mudado de rumo. Foi tão intenso que o tempo passou e não se percebeu que o dia havia amanhecido. Exaustos e saciados como dois animais, permaneciam unidos como se tivessem passado a vida inteira juntos. Uma onda de ternura e amor cobriu os dois amantes com o nascer da aurora. Um final épico, como nas grandes óperas como a Aída de Verdi, quando ao fim do quarto ato, o guerreiro Radamés é condenado por traição e levado para o interior de sua cripta, onde se despede da vida e da lembrança de sua amada para sempre. Então aparece Aida, que conseguiu entrar furtivamente no túmulo para morrer ao seu lado. A escrava egípcia e ex-princesa etíope encontra a morte nos braços do seu amado, encerrando a epopéia.
Para Brenda o mundo poderia terminar ali, naquele exato momento. Pois morreria feliz como Aída, nos braços do seu amado.
Termina sua mensagem dizendo que depois disso vinte anos se passaram. A paixão durou exatamente um ano. Brenda chegou a engravidar de Fred mas perdeu a criança sem que ninguém soubesse. Hoje é funcionária pública, os filhos cresceram e se foram. Ela vive sozinha com suas lembranças. Sua irmã Cecília que oficialmente nunca soube de nada, está casada e feliz com a família. Fred desapareceu depois deste incrível ano de paixões e luxúrias que viveram. Nunca mais soube notícias dele, que ainda hoje aquece seus pensamentos nas noites chuvosas de verão, entre doses solitárias de vinho.
Brenda carrega a culpa de ter tirado o grande amor da vida de sua irmã e ao mesmo tempo tê-lo conquistado e obrigado a renunciá-lo por conta das convenções da sociedade e da família.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um dia te perdoarei por te trair...

“O amor, no meu entender, devia surgir de repente,
com ruídos e fulgurações,
tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve,
arranca as vontades como folhas
e arrebata para o abismo o coração inteiro.”
(
Gustave Flaubert)
Recebo o e-mail de uma leitora que diz ser casada há 25 anos. Seu nome fictício é Clara. Ela enfatiza que vive em harmonia e afirma amar o marido profundamente. Mesmo assim, eventualmente, costuma sair e fazer amor fora do casamento. Sente-se dividida entre o que considera ser certo e o que conclama ser justo. O certo, ela diz, seria ser fiel ao marido, independente da situação. O justo, sentencia, é ser feliz e dar vazão à sua necessidade de ser valorizada e querida, mas além de tudo, cortejada e desejada.
Ela me diz que sempre teve uma vida tranqüila, talvez rotineira demais, mesmo no período de adolescência. Poucos envolvimentos, cidade pequena, namorado amigo de infância, flertes na pracinha, noivado, casamento, filhos, pão de queijo e missa. Tudo muito tradicional.
Ela conta que a partir do segundo filho as coisas começaram a mudar de rumo em sua vida. O marido invariavelmente a deixava só com os filhos nos finais de semana para ficar com os amigos no dogmático futebol e na essencialidade do boteco. Ela, filha de família tradicional, cumpria religiosamente o papel que a sociedade lhe destinou: cuidar da casa, dos filhos e do marido. A vaidade e a auto-estima desvaneceram-se nas brumas do tempo. O brilho do olhar tornou-se difuso e sem vida. No papel de esposa amante, nada de alegria, nada de harmonia, nada de fantasia. Somente o sexo invariavelmente obrigado, insuficiente, geralmente nauseabundo, cheirando à álcool e à atmosfera de botequim.
Viveu assim durante duas décadas, forçando o sorriso para a sociedade, fingindo orgasmos e criando os filhos. Vivia como uma sombra, aliás, era a sua própria sombra. Um estranho fantasma, que assombrava principalmente à si própria.
Um certo dia, enquanto flanava absorta pela cidade, fazendo compras, quando percebeu que alguém lhe olhava de maneira insistente. Era um amigo dos tempos de ginasial, agora com alguns fios grisalhos nas têmporas. Maduro mas muito bonito, mantinha o mesmo sorriso cativante de outrora. Encontraram-se no hortifruti e entre alfaces e rúculas um raio de fatalidade caiu sobre os dois. Foi como uma explosão atômica, um vigoroso vulcão jorrando sua lava incandescente para os céus, um tsunami emocional, o rompimento de um casulo escuro e úmido, onde uma larva amorfa esteve presa por longo tempo em hibernação, despertando então travestida em uma multicolorida e esvoaçante borboleta, abrindo suas asas à luz do sol e ao calor da vida. Willian Shakespeare
diz que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar. E assim aconteceu.
Clara então passa a viver um conflito interno entre seu recém descoberto amor entremeado de emoção e desejo e um enorme sentimento de culpa. Sentada á mesa com à família, às vezes sentia-se suja e indigna de sua família, por estar se entregando de corpo e alma ao seu amante. Tentava esconder suas mudanças de comportamento e sua felicidade, sem falar da onda de ternura e amor que sentia pelo homem que a resgatou de volta para a luz. Embriagou-se com o vinho do amor, para o qual não existe antídoto. Para não morrer, dizia Toulouse-Lautrec, devemos sorvê-lo até a última gota.
A vida de Clara segue normal e seu marido de nada desconfia. Envolvido com o futebol e a turma do boteco, aliado ao sentimento de posse e domínio que sempre nutriu pela esposa, jamais imaginaria que ela ama outro homem e que é uma chama viva quando a ele se entrega. Sim, entrega total e verdadeira. Talvez por isso tenha-se originado o termo traição: do latim traditione, que quer dizer, entrega. Clara, nossa Madame Bovary das Vertentes, não se sente forte o suficiente como mulher, nem confiante o bastante como amante para dar fim ao seu casamento. Segue em sua vida dupla: entediando-se em casa e realizando seus mais profundos desejos através das maravilhosas e sofisticadas fantasias com seu amante. Quem ousa atirar a primeira pedra?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Livreiro de Cabul e as Invisíveis Burcas Brasilianas

No excelente livro “O Livreiro de Cabul” da norueguesa Asne Seierstad, vive-se a dura realidade da vida cotidiana do Afeganistão, país devastado por sucessivas e intermináveis guerras. As contradições afegãs e um complexo e tolhido universo feminino, nos faz refletir sobre a distância cultural entre nossas sociedades enquanto que, ao mesmo tempo, nos remete para situações muito próximas em famílias brasileiras.
Em certa passagem do livro, o jovem Karim, Jornalista e órfão de pai e mãe se apaixona por Leila, filha caçula de Bibi Gul, matriarca e mãe de 13 filhos. Bibi Gul, por ser viúva, vive com seu irmão, Sultan Khan o patriarca da família que é casado com duas esposas. As ordens despóticas de Sultan são indiscutíveis e Leila, que funciona como empregada doméstica de todo o clã, sonha em se casar e ter sua própria família.
O Afeganistão tem uma cultura muito particular, o conservadorismo afegão vai além do uso da ‘burca’ pelas mulheres. Passa pela submissão existencial onde se inclui as tarefas domésticas diárias e extenuantes, transita pela exclusão institucional em relação ao mercado de trabalho, por não poder possuir amigos do sexo masculino e ao menos estudar ou conversar com eles. As afegãs acostumaram-se a ver o mundo através das rendas das ‘burcas’, onde o calor e o desconforto extinguem toda a beleza e frescor do existencial do feminino. Portanto, um bom casamento que a liberte da pesada escravidão familiar é tudo que uma mulher afegã pode sonhar. Karim e Leila amam-se desesperadamente sem nunca terem ao menos conversado um com o outro. Sonham sonhos secretos de viverem juntos por toda a vida. Mas para isso as famílias precisam autorizar o enlace, é assim na sociedade afegã. Numa rara oportunidade que têm de se aproximar um do outro, Karim e Leila travam um diálogo surreal numa repartição pública de Cabul:

- Qual é sua resposta?

- Você sabe que eu não posso te responder -, ela diz.

- Mas o que você quer?

- Você sabe que eu não posso querer nada.

- Mas você gosta de mim?

- Você sabe que eu não posso ter opinião sobre isto.

- Você vai aceitar se eu pedir a sua mão?

- Você sabe que não sou eu quem decide.

- Você quer me encontrar de novo?

- Não posso.

- Por que não pode ser um pouco mais gentil? Você não gosta de mim?

- A minha família é quem decide se eu gosto de você ou não.

Karim e Leila jamais se viram novamente. Decepcionado com o ocorrido, o jovem decide seguir a carreira religiosa e se tornar um Mulá. Leila continuou em sua vida de doméstica da família e o livro não avança mais do que isso sobre os dois.
Piores que as ‘burcas’ afegãs são as ‘burcas brasileiras’, onde, mulheres são tolhidas de enxergar o mundo com seus próprios olhos para serem obrigadas a olhar com o olhar da família ou do marido. É fato corriqueiro hoje em dia, que a mulher primeiro avalie no que pensará a sociedade, para depois tomar alguma decisão.
Nas coisas do amor é ela quem mais sofre. Muitas vezes, como as afegãs, casam para deixar uma família exploradora e sem amor. Melhor sofrer em sua própria casa que na de outrem. Passará a vida (geralmente) por trás de uma ‘burca invisível’, sem atitude própria, sem opinião, fingindo orgasmos e erotismo, sem direito ao trabalho e assentir calada ao cheiro de álcool e do perfume barato que ele trás impregnado das outras mulheres.
Como no Afeganistão, as mulheres brasileiras que envergam uma burca invisível, usufruem de raros momentos de alegria. Na maioria dos casos quando visitam a família e a mãe, matriarca sempre tão generosa e acolhedora.
Gustav Klimt, pintor simbolista austríaco nascido no século XIX emoldurou de maneira magnífica em sua tela “O Beijo”, a posição da mulher que aceita o beijo do homem que a subjuga sem porém se entregar. No quadro, que encerra a ‘art noveau’ vienense para dar lugar ao expressionismo, se sente a atmosfera do prazer atingido, sem expressar porém qualquer tipo de sublimação do amor por parte da mulher.
O universo da mulher é infinitamente mais rico e complexo que o masculino. Então, quando o homem enfrenta algo desconhecido e grandioso, como a alma feminina, geralmente rejeita, recua ou agride. Sendo assim, torna-se mais fácil e seguro para os homens, pô-las a vestir a burca invisível do autoritarismo, do que procurar entendê-las, humildemente, no poder e plenitude do maravilhoso universo que elas possuem.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Édipo Gritante
O que fazer quando ele vê na mulher uma outra mãe?

E aqueles que foram vistos dançando,
foram julgados insanos por aqueles
que não podiam escutar a musica.
(Friedrich Nietzsche)

Um casal tem por obrigação de "demarcar seu território" em relação às suas famílias - do homem e da mulher, respectivamente. Família não se pode escolher e, por isso, somos submetidos muitas vezes à ditadura de sogras, irmãs, cunhados, primos, primas, etc.
O sentimento e a unidade da família só têm sentido quando for para iluminar os lares de felicidade. A vida é muito dura e em muitas vezes, nos momentos em que estamos mais fragilizados, parte da família, tentan nos culpar, nos diminuir, nos magoar.
Parece que querem nos jogar de vez no precipício. Agora, por outro lado, fugir de uma realidade que está posta, pode ser um "tiro pela culatra". No caso feminino, a mulher geralmente é cobrada, por força atávica, pelo mundo matriarcal, de "roubar" o varão da família e querê-lo só para si. Para algumas famílias é uma grande blasfêmia o ato de “tirar o menino de casa”. E você mulher, precisará estar atentíssima, pois, havendo uma crise qualquer, poderá ser cobrada por ter propiciado a separação da família e usurpado o filho da mãe (com ou sem trocadilho, fiquem à vontade...).
As decisões devem ser pensadas para que as cobranças futuras, não sejam um fardo pesado demais para se carregar. Por incrível que pareça ainda se vê no mundo moderno o filho que sofre forte influência de mãe e, quando resolve tentar ser um homem independente, saindo de casa e construindo um lar, geralmente com uma mulher, bate uma síndrome de Édipo daquelas de arrasar quarteirão.
Na tragédia de Sófocles, a obsessão libidinosa do filho pela madrasta, Jocasta, leva Édipo a matar seu pai Laio, para que possa enfim desposá-la. Ao descobrir que Jocasta era sua mãe verdadeira, fura os próprios olhos e Jocasta dá cabo da própria vida, encerrando a tragédia. Sófocles apresenta-se cada vez mais atual, se fizermos uma reflexão profunda sobre as relações triangulares entre mães, filhos, esposas e mulheres. Para aumentar o caos, Carl Jung nos brinda com Complexo de Electra que analisa a aguerrida disputa entre mães e filhas pelo amor do pai e esposo. É outro mito grego baseado em Electra, filha de Agamenon que juntamente com seu irmão tramou a morte da mãe Clitemnestra, para vingar a morte do pai, pelo qual era apaixonada. Nosso herói então, para aliviar a culpa de ter se separado da mãe, resolve cobrar da companheira, sua mulher, a postura da mãe protetora e de suas idiossincrasias edipianas. Na verdade não digeriu bem a “separação” e o afastamento da mãe. Apesar de nos primeiros momentos ter conseguido abafar o Édipo que grita em suas entranhas.
Ele precisa de outra mãe. E agora? Você é mulher, não é mãe... Talvez esteja até precisando de um pouquinho de pai! E o chorão ali, querendo colo... Reclamando que o frango tá sem sal, que a camisa não está bem passada...que a mãe dele fazia assim e assado... Putz...Às vezes o problema está dentro da gente e por diversos motivos, ficamos repassando-o para outras pessoas. É importante avaliar até que ponto, as coisas são isso mesmo. Família não tem poder para acabar com uma relação completa e plena. O que acaba com o amor a dois é desamor... Hábitos destrutivos como a infidelidade, o desrespeito, a rejeição, não ouvir a companheira, a imaturidade para criar os filhos, falta de compromisso com o outro. Um conjunto de artimanhas que certamente são estratégias do Édipo gritante que dará fim à relação amorosa tão sonhada e desejada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Essas Maravilhosas Feministas Brasileiras e os Vagalumes de Braudel


Fernand Braudel disse há cinco décadas que certos acontecimentos históricos eram como os vagalumes. Brilham mas não iluminam o caminho. Obviamente sem o brilhantismo acadêmico do grande pensador e farol de inúmeras gerações, faço uma comparação com o momento político brasileiro atual. O Brasil saiu recentemente de seu modelo agrário para a industrialização. A mudança transformou o perfil de nossa sociedade de maneira significativa. Os meios de comunicação de massa, rádio, TV, Internet, telefonia móvel, o planeta ruma célere para um desenvolvimento tecnológico nunca visto. As assimetrias sociais e raciais que afligem a sociedade contemporânea oscilam de maneira sazonal entre os povos. Massacre nos Bálcãs contra fim do Apartheid na África do Sul. Permanência do domínio colonial inglês nas Ilhas Malvinas contra a ascensão de um presidente negro nos EUA e um índio na Bolívia. As assimetrias se sucedem e os acontecimentos se tronam banais. Meros vagalumes de Braudel. No Brasil acontece uma coisa verdadeiramente excitante que é a possibilidade da continuidade do Governo Lula. O país passará por momentos eletrizantes nos próximos meses. De um lado uma candidatura com perfil conservador e de outro uma mulher guerreira e ex-guerrilheira, forjada nas lutas contra a repressão da ditadura militar nos anos de chumbo. A batalha será duríssima. Não se enganem os inocentes de plantão com o já ganhou, geralmente alardeado pelos hiper-otimistas que vivem no mundo de Polyana. Historicamente as mulheres sempre foram discriminadas em nossa sociedade. O processo político brasileiro nunca permitiu que uma mulher se elegesse presidente da república. O voto e a candidatura feminina eram possíveis, mas não considerados na Constituição de 1891. O artigo 171 da referida carta-magna rezava que cidadãos poderiam votar e ser votados. Segundo a interpretação machista da época, mulheres não eram “cidadãos”, além de considerarem a candidatura feminina uma enorme desonra para as mulheres. Podemos dizer até que houve uma regressão jurídica, pois, houve em um primeiro momento em que a Constituição de 1889, em sua primeira versão, admitia o voto feminino. Mas o artigo foi nas edições posteriores. Fatos históricos como esses, seriam relegados à mera condição de “vagalumes de Braudel” se não fosse a luta de mulheres excepcionais como Nísia Floresta, Berta Lutz, Celina Guimarães Viana, Maria Moura e Carlota de Queiroz. Nísia Floresta, considerada a fundadora do feminismo no Brasil, sempre desde sempre, foi árdua defensora do voto feminino e pelo trabalho para mulheres sem autorização do marido. Betha Lutz criou em 1919 a Liga da Emancipação feminina, que no movimentado ano de 1922 (criação do PCB, Coluna Prestes, Movimento Tenentista, Semana de Arte Moderna) se transformou na Federação Brasileira para o Progresso Feminino Minas Gerais e Rio Grande do Norte, foram os primeiros estados do país a legalizarem o voto feminino. Celina Guimarães Viana foi a primeira eleitora registrada no Brasil, no ano de 1927, baseada em um artigo da lei eleitoral potiguar. Mas foi a feminista e advogada mineira Mietta Santiago que iniciou a verdadeira revolução pelo voto feminino, em 1928, ao perceber que a proibição ao voto das mulheres ia de encontro à Constituição Federal de 1981, exatamente em seu artigo 70. Mietta se candidatou à Cãmara Federal e votou em si mesma, quebrando um tabú político que muitos imaginavam impossível. Em 1934, a médica paulista Carlota de Queiroz é eleita a primeira deputada Federal do Brasil para a Constituinte do mesmo ano. Carlota de Queiroz foi fundadora da Academia Brasileira de Mulheres Médicas. Seu mandato foi em defesa das mulheres e das crianças. Carlota manteve uma ativa atividade parlamentar até 1937, quando seu mandato foi interrompido com o golpe de estado prepetrado por Getúlio Vargas. Carlota proferia dircursos emocionantes no Congresso Nacional. Em 1934 emocionou a todos com este pronunciamento: "Além de representante feminina, única nesta Assembléia, sou, como todos os que aqui se encontram, uma brasileira, integrada nos destinos do seu país e identificada para sempre com os seus problemas. (…) Acolhe-nos, sempre, um ambiente amigo. Esta é a impressão que me deixa o convívio desta Casa. Nem um só momento me senti na presença de adversários. Porque nós, mulheres, precisamos ter sempre em mente que foi por decisão dos homens que nos foi concedido o direito de voto. E, se assim nos tratam eles hoje, é porque a mulher brasileira já demonstrou o quanto vale e o que é capaz de fazer pela sua gente. Num momento como este, em que se trata de refazer o arcabouço das nossas leis, era justo, portanto, que ela também fosse chamada a colaborar. (…) Quem observar a evolução da mulher na vida, não deixará por certo de compreender esta conquista, resultante da grande evolução industrial que se operou no mundo e que já repercutiu no nosso país. Não há muitos anos, o lar era a unidade produtora da sociedade. Tudo se fabricava ali: o açúcar, o azeite, a farinha, o pão, o tecido. E, como única operária, a mulher nele imperava, empregando todas as suas atividades. Mas, as condições de vida mudaram. As máquinas, a eletricidade, substituindo o trabalho do homem, deram novo aspecto à vida. As condições financeiras da família exigiram da mulher nova adaptação. Através do funcionalismo e da indústria, ela passou a colaborar na esfera econômica. E, o resultado dessa mudança, foi a necessidade que ela sentiu de uma educação mais completa. As moças passaram a estudar nas mesmas escolas que os rapazes, para obter as mesmas oportunidades na vida. E assim foi que ingressaram nas carreiras liberais. Essa nova situação despertou-lhes o interesse pelas questões políticas e administrativas, pelas questões sociais. O lugar que ocupo neste momento nada mais significa, portanto, do que o fruto dessa evolução.
" Maria Moura - Uma Anarquista Maravilhosa!!!!
Os cinco volumes da obra “Os Companheiros” de Edgar Rodrigues listam o nome de 52 mulheres que tiveram especial relevância no movimento social, no período que vai do final do século XIX à metade do século XX. Mineira de Barbacena, Maria Moura merece destaque, não só pela sua combatividade, mas pela sua intensa atividade literária, como também pelo sucessor, não só no Brasil, como nas Américas e Europa. Maria Moura organizou um grupo de mulheres da região para a construção de casas populares para a população carente da cidade. Participou da fundação da Liga Contra o Analfabetismo. Mudou-se para São Paulo onde passou a trabalhar na imprensa operária e anarquista brasileira e internacional. Publicou artigos em jornais progressistas como O Combate, de São Paulo e O Ceará de Fortaleza, de onde se extraiu o texto Feminismo? Caridade? Bem como em diferentes jornais operários e anarquistas de todo o Brasil. Em Fevereiro de 1923, lançou a revista Renascença, publicação cultural divulgada no movimento anarquista e entre setores progressistas e livre-pensadores. A importância desta militante pode ser avaliada, entre outros, pelo fato de que, em 1928, jovens estudantes e trabalhadores paulistas terem invadido o jornal pró-fascista italiano Il Piccolo, como resposta a um artigo que caluniava violentamente a pensadora libertária. Na mesma época, Rachel de Queiroz polemizou acaloradamente, nas páginas do jornal O Ceará, com um jornalista cearense que atacou Maria Lacerda. Ativa conferencista, tratava de temas como educação, direitos da mulher, amor livre, combate ao fascismo e antimilitarismo, tornando-se conhecida não só no Brasil, mas também no Uruguai e Argentina, onde esteve convidada por grupos anarquistas e sindicatos locais. Entre 1928 e 1937, a ativista libertária viveu numa comunidade em Guararema (SP), no período mais intenso da sua atividade intelectual, tendo descrito esse período como uma época em que esteve "livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais". Maria Lacerda de Moura pode ser considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil e uma das poucas ativistas que se envolveu diretamente com o movimento operário e sindical. Entre os seus numerosos livros destacam-se: Em torno da educação (1918); A mulher moderna e o seu papel na sociedade atual (1923); Amai e não vos multipliqueis (1932); Han Ryner e o amor plural (1928) e Fascismo: filho dileto da Igreja e do Capital. O texto de Maria de Moura que transcrevemos de seguida foi publicado no jornal independente O Ceará (1928), de Fortaleza, a pedido da então jovem escritora Rachel de Queiroz, que se consagraria como uma das grandes romancistas brasileiras contemporâneas. Esse texto expressa o pensamento de Maria Moura sobre o feminismo e sua visão anarco-individualista. Uma filosofia libertária bastante influenciada por Han Ryner, um pensador libertário original que se destacou em França como ativista anti-militarista, anti-clerical e defensor do amor livre. Outra influência notória no texto é a de Emile Armand. É certo que ele não representa todo o pensamento da anarquista brasileira. Como todo militante, com larga atividade literária, passou por diferentes fases e sua reflexão abordou temas tão diversos como a guerra, o malthusianismo e a pedagogia libertária. Polêmica na literatura e na militância, Maria Moura passou pela Maçonaria e pela Fraternidade Rosa Cruz, com quem rompeu denunciando-a como agente do nazismo. Atravessou algumas fases de maior envolvimento social e outras de isolamento, umas de otimismo e outras de declarado pessimismo. E, se no fim da vida, permanecia num certo pessimismo, isso se deve certamente às divergências e rupturas que, no fim da década de 20, confrontavam anarquistas e comunistas ao mesmo tempo em que acontecia a ameaçadora ascensão do fascismo. No entanto, quando após a fundação do Partido Comunista dirigentes desse partido, fizeram várias tentativas para aliciá-la, a pensadora libertária recusou-se a abandonar sua visão de mundo, mantendo até ao fim da vida o seu anarquismo individualista. Maria Moura é praticamente desconhecida no Brasil, mas sua vida e obra lhe caracterizam como aquela que seria uma das primeiras e mais importantes ativistas das causas das mulheres no mundo, mas que nunca reconheceu no Estado, no Direito e no acesso profissional burguês a sua causa. Na verdade, isso acontece porque, antes de tudo, via generosamente a luta feminista como parte integrante do combate social compartilhado igualmente por homens e mulheres engajados na luta pela eliminação de toda exploração, injustiça e preconceito. Maria Moura e todas essas maravilhosas mulheres deixaram um verdadeiro legado de luta contra a opressão masculina e a homofobia. São iluminadoras, suas vidas servem como archotes na escura noite da subcidadania. Não são vagalumes de Braudel, seus brilhos não são efêmeros. São e serão, sempre imponentes, faróis que nos guiam nas tempestades e tormentas da vida.





Nísia Floresta

É considerada uma pioneira do feminismo no Brasil e foi provavelmente a primeira mulher a romper os limites entre os espaços público e privado publicando textos em jornais, na época em que a imprensa nacional ainda engatinhava. Nísia também dirigiu um colégio para moças no Rio de Janeiro e escreveu livros em defesa dos direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.








Celina Guimarães Viana



Nascida no Rio Grande do Norte foi a primeira eleitora inscrita no Brasil. Ao conquistar o título de eleitora, acabou desencadeando um grande movimento, levando mulheres de diversas cidades do Estado e de outros nove estados brasileiros a lutar pela mesma conquista. A luta pela emancipação política feminina ganhou impulso em todo o país e o voto feminino foi regulamentado no Brasil em 1934. Em dia 25 de novembro de 1927, ela deu entrada numa petição requerendo sua inclusão no rol de eleitores do município de Mossoró (RN), onde nasceu e viveu.

Carlota Queiroz



Fundou a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, em 1950. Foi a primeira deputada federal da História do Brasil, eleita pelo estado de São Paulo em 1934, fez a voz feminina ser ouvida no Congresso Nacional. Seu mandato foi em defesa da mulher e das crianças, trabalhava por melhorias educacionais que contemplassem melhoria no tratamento das mulheres. Além disso, publicou uma série de trabalhos em defesa da mulher brasileira.