Amauri Queiroz

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Bibi Aisha Sobreviveu ao Talibã

Quando o rosto da jovem afegã Bibi Aisha (“bibi” significa algo como “senhora” em urdu), de 18 anos, estampou a capa da edição da revista americana Time, sua beleza ficou em segundo plano, ofuscada pela chocante ausência de seu nariz, extirpado a faca pelo seu marido. Na semana passada, Aisha apareceu em público pela primeira vez usando uma prótese e pudemos, finalmente, prestar atenção ao seu sorriso. Esther Hyneman, da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs, que esteve com Aisha na Califórnia, na semana passada, diz que ela está feliz com o novo visual, embora ainda não tenha conseguido deixar para trás o trauma da violência que sofreu. “Vai levar tempo para que ela se recupere, mas somos muito otimistas porque ela é uma sobrevivente. Muitas pessoas teriam morrido naquela situação”, diz Esther. Nessa entrevista, Esther conta que comprou um mapa múndi para mostrar a Aisha onde fica seu país e onde ela está agora, os Estados Unidos, e avalia a situação das mulheres no Afeganistão, onde ela passa seis meses por ano fazendo trabalho humanitário.
Lendo as muitas reportagens escritas sobre a história de Bibi Aisha, notei que há várias informações desencontradas e inconsistentes. Sua idade, quem a socorreu depois de agredida pelo marido e até qual foi a participação do Talibã na agressão. A que se pode atribuir essas diferenças?
Esther Hyneman – Não li todas as reportagens que saíram sobre ela, mas a maioria das entrevistas deve ter sido feita por meio de tradutor, o que facilita mal entendidos, e muitas devem reproduzir de maneira errônea o que foi publicado por outros veículos. Os fatos básicos sobre Aisha são muito simples: ela foi vítima de um costume tribal chamado “baad”, em que uma propriedade é dada pela família que cometeu uma ofensa ou um crime a outra família. A propriedade é uma forma de compensação pelo crime ou ofensa. Pode ser dinheiro, terras ou até mesmo, e muito frequentemente, jovens meninas. Aisha foi dada como compensação pelo assassinato que seu tio cometeu contra um membro da família.
Ela tinha 10 anos quando isso aconteceu?
Esther Hyneman - Não sabemos exatamente que idade ela tinha, mas era bem jovem. Ela foi maltratada – como essas garotas sempre o são – e escravizada. Depois de anos de abuso em que apanhava com frequência, ela fugiu. Não temos certeza, mas talvez um vizinho a tenha ajudado. Ela conseguiu chegar a Kandahar e foi presa pela polícia porque mulheres não podem andar sozinhas pela rua – é uma regra em todo o país, mas especialmente em áreas como Kandahar, controlada pelo Taleban. De alguma maneira, seu pai descobriu que ela estava presa em Kandahar e persuadiu o comandante a libertá-la. Então, ele a levou de volta à mesma família a que tinha sido dada, à família de seu marido. Ele deveria saber que estava levando sua filha para a tortura e a morte, uma vez que a família de seu marido era taleban.
Li um artigo que questionava se o marido dela era taleban. Essa informação é confirmada?
Esther Hyneman - Sim, é confirmada. Por favor, publique-a. Estou na Califórnia, vim até aqui para ver Bibi e ontem ela ficou transtornada quando alguém mencionou o Taleban. Ela começou a gritar com toda força sobre o que eles haviam feito com ela. Não há nenhuma dúvida quanto a isso. O artigo da revista The Nation que questiona isso está mentindo. Aisha foi torturada por uma família taleban. Ela foi levada para uma área isolada, imobilizada por pessoas da própria família ou amigos ou vizinhos do marido, e seu marido ou o irmão dele, não sabemos ao certo, cortaram fora seu nariz e suas orelhas. Ela foi então abandonada para morrer sangrando.
Em uma entrevista, a senhora disse que a punição de Aisha provavelmente tem origem em um dizer pashtun (uma das tribos que povoam o Afeganistão) que diz que o homem cuja mulher foge perdeu o nariz. É possível que venha desse velho ditado popular?
Esther Hyneman - É uma punição que acontece em vários lugares do país. Não sei quão prevalente ela é, mas vimos outros casos. Não acredito que seja necessariamente restrita ao Afeganistão. Depois de ser punida, Bibi desmaiou. Ela estava sangrando muito, não conseguia nem enxergar direito. Achou até que fosse água, num primeiro momento. Ela conseguiu ir até sua vila e, pelo que entendi, seu tio não a deixou entrar. Então alguém, talvez seu pai, levou-a para a base militar americana, onde ela recebeu tratamento médico. Quando ela estava melhor, eles nos pediram para abrigá-la. E ela ficou conosco por nove meses até que nós arranjamos o tratamento médico e cirúrgico nos Estados Unidos com a Fundação Grossman para Queimados.
Como ela tem se recuperado desde que você a conheceu, no Afeganistão?
Esther Hyneman - Ela tem ido muito bem, mas qualquer pessoa que tenha passado pelo que ela passou, ser dada pela família, tratada como uma escrava, torturada, sofre de síndrome de estresse pós-traumático. Vai levar tempo para que ela se recupere, mas somos muito otimistas, porque ela é uma sobrevivente. Muitas pessoas teriam morrido naquela situação, não teriam sido capazes de chegar até o vilarejo. Ela conseguiu se manter viva. Ela nunca esteve na escola, não tem informações concretas sobre o mundo, mas é extremamente inteligente. Ela tem um tipo de inteligência inata. Ela é muito esperta, espirituosa e falante. Ela tem qualidades que vão ajudá-la a conseguir uma vida produtiva. Ela só precisa de tempo para se recuperar.
Quando deve acontecer a cirurgia para a reconstrução do nariz de Bibi?
Esther Hyneman - Não sabemos. Ela precisa de um período de repouso porque o tratamento vai ser um outro tipo de trauma que ela vai enfrentar. São várias cirurgias e a Fundação Grossman está avaliando se ela está psicologicamente pronta para elas. Não existe um calendário, mas ela está recebendo cuidados de quem a ama e está feliz, aproveitando sua estadia. Ela tem agora a prótese de nariz e está se sentindo ótima ao aparecer em público. Ela é uma jovem linda.
Como ela se sente ao saber que sua foto foi reproduzida no mundo todo?
Esther Hyneman - Foi um pouco demais para ela. Aisha é jovem mulher que nasceu em um vilarejo. Comprei para ela um mapa do mundo para mostrar onde ficava o Afeganistão, onde ficava Dubai, onde seu avião fez escala antes de parar em Nova York, onde era a Califórnia, onde ela estava. Nós pusemos o mapa no chão e exploramos isso porque ela não sabia essas coisas sobre as quais nem pensamos.
Li que a irmã de Aisha pode estar ainda com a família de seu marido no Afeganistão. Isso é verdade?
Esther Hyneman - Supomos que a irmã dela esteja lá e nos preocupamos com isso, mas não há como sabermos se ela está lá e como ela está porque é uma área controlada pelo Taleban e, por isso, muito perigosa. O rosto de Bibi na capa da Time é um alerta do que pode acontecer se o Taleban dominar o Afeganistão. E se isso acontecer, o país vai se tornar refúgio para grupos terroristas que podem repetir atos como o 11 de setembro. Se isso acontecer, os custos de vidas humanas e de dinheiro serão ainda maiores do que já foram até agora. Nossa mensagem para o mundo democrático é que ele está sob ameaça aqui.
Muitas pessoas afirmam que muito pouco mudou no Afeganistão com a chegada dos americanos porque líderes fundamentalistas islâmicos que concordam com os talebans em vários aspectos continuam no governo. Qual a sua opinião sobre isso?
Esther Hyneman - Houve progressos nesses últimos anos. Pode não ser o suficiente, mas é incrível num país que ficou em guerra por 30 anos e estava sob o domínio de um regime tabelan brutal. Agora a maioria das pessoas do país quer um governo transparente, quer educação para suas crianças. As mudanças são óbvias. Nós somos uma organização sem fins lucrativos no Afeganistão e temos cinco centros para a educação das famílias e cinco abrigos. Isso é progresso. Nós ganhamos casos em favor das mulheres na Justiça. Há uma nova lei para a eliminação da violência contra a mulher assinada este ano pelo presidente Hamid Karzai que nos ajuda a defender as mulheres na Corte. Isso é progresso. Temos mais de 150 funcionários, todos eles afegãos, e eles arriscam suas vidas e as de suas famílias porque estão comprometidos com a causa de um governo progressista, leis progressistas. Pesquisas mostram que os afegãos querem uma vida melhor, querem que mais escolas sejam construídas. Se nós continuarmos no Afeganistão, o país pode se tornar um modelo do que é possível ser feito. Nós não somos invasores, os talebans são os invasores.
Agora Aisha está nos Estados Unidos. Há planos de que ela volte para o Afeganistão?
Esther Hyneman - Estamos vivendo um dia de cada vez. Não temos nenhuma ideia de como será a vida de Aisha. Temos que esperar para ver.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A Marcha das Vadias - SlutWalk por Fátima de Oliveira

A Marcha das Vadias (SlutWalk) é a reedição da lendária Queima dos Sutiãs (Bra-Burning), após quase 43 anos, com o mesmo fim: visibilizar e escrachar o patriarcado em sua forma cotidiana e cruel - o machismo, esteio da violência contra a mulher?
Sim! A diferença é que a Queima dos Sutiãs original, a primeira, é lenda feminista deliciosa e incendiária, pois ela foi simbólica, tal qual a viúva Porcina, "a que foi sem nunca ter sido". De fato, não aconteceu! Depois de amontoar sutiãs, não permitiram queimá-los no recinto fechado do protesto, mas entrou para a história e virou a fagulha para várias queimas de sutiãs, num mundo de minissaia recém-inventada (1964) e pré-web (1993).
À época, a feminista e escritora Germaine Greer verbalizara: "O sutiã é uma invenção ridícula". Queimar sutiãs se adequou ao discurso de protesto de "400 ativistas do Women's Liberation Movement (WLM) contra o concurso Miss América no Atlantic City Convention Hall, após a Convenção Nacional dos Democratas" (7.7.1968). Deu no "New York Post": "Queimadoras de sutiãs e Miss América".
O feminismo tem tradição de fazer política ousada e criativa, demonstrando, de modo inteligível e de fácil assimilação, que a opressão feminina é um fenômeno pancultural, pois o patriarcado é um sistema cultural e político arcaico - que vê as mulheres como vadias -, sobrevivente e entranhado em todo tipo de Estado contemporâneo. Logo, a ideologia e a luta feministas, não esqueçam, ainda são "da hora"!
É brisa nova a Marcha das Vadias, que invade o mundo como uma onda... Iniciada em Toronto (Canadá), em abril de 2011, como resposta política a um discurso machista de uma autoridade policial, estribado num argumento que tenta nos impor, há séculos, que "quem se veste como vadias estimula crimes sexuais"! Universitárias canadenses foram às ruas, numa performance para antropologia da moda nenhuma botar defeito: roupas putíssimas, estilo matadeira! É a moda fetichista da Daspu, que é um deslumbre, fazendo escola! Estopim chique no último: "A roupa como manifestação simbólica de opiniões libertárias" (O TEMPO, 21.9.2010).
A Marcha das Vadias criou asas. Com adesão espontânea, desinstitucionalizada e a partir da web, mais de 70 cidades já marcharam. Bateu forte em mim. Em 2002, o campus onde ocorria o 9º Encontro Internacional Mulher e Saúde (Toronto) e nos hospedava estava cheio de cartazes aconselhando andarmos em bandos, pois, há uma semana, uma estudante havia sido estuprada e morta ali! Estupros e assassinatos em campus universitários, no mundo, ocorrem com frequência absurda. A tendência tem sido acobertá-los para preservar a moral e os bons costumes(?). Até quando esconder tais crimes será medida tida como pedagógica?
Aqui não é diferente. É ilustrativo o episódio troglodita e vitoriano de Geisy X Uniban (2009), em que a Uniban acolheu a gana de estuprar da turba que a acuou, por causa de um vestido curto, visto como "matador", dando uma resposta sem senso de loção e criando conflitos de fragâncias: eliminou Geisy do corpo discente, endossando a fala do seu secretário geral: "A aluna veio trajada de uma determinada forma e isso provocou os alunos... Ela deu causa".
A Marcha das Vadias tem tudo pra deslanchar por aqui. A de São Paulo foi no sábado, dia 4. E, no dia 18, será a de Belo Horizonte, com concentração na praça da Rodoviária. E o mote é "À Marcha das Vadias só não vai quem já morreu"...
Fonte: O Tempo


quinta-feira, 16 de junho de 2011

James Joyce and the Bloomsday

Bloomsday is a commemoration observed annually on June 16th in Dublin and elsewhere to celebrate the life of Irish writer James Joyce and relive the events in his novel Ulysses, all of which took place on the same day in Dublin in 1904. Joyce chose the date because his first outing with his wife-to-be, Nora Barnacle happened on that day, when they walked to the Dublin urban village of Ringsend. The name derives from Leopold Bloom, the protagonist of Ulysses.

Tentando Entender as Mulheres

Um homem caminhava por uma praia e tropeçou numa velha lâmpada. Ele pegou-a e esfregou-a e um gênio saltou dela. O gênio disse:
- OK, você me libertou da lâmpada! Blá, blá, blá, blá, blá, blá… Esta é a quarta vez este mês e eu estou ficando enjoado destes pedidos. Então você pode esquecer aquela estória de três desejos… Você tem direito a apenas um desejo e ponto final.
O homem sentou e pensou por um instante. Depois disse:
- Eu sempre quis ir para o Hawaí, mas tenho um medo danado de voar e no mar costumo ficar enjoado. Você poderia construir uma ponte até lá, para que eu pudesse ir dirigindo? O gênio riu muito e disse:
Isso é impossível! Pense na logística do assunto… Como as colunas de sustentação alcançariam o fundo do oceano? Pense em quanto concreto, quanto aço teria que ser usado numa ponte desse tamanho!! Daria uma baita mão-de-obra!! Isso está fora de cogitação! De jeito nenhum! Ponte não dá! Pense em outro desejo.
O pobre homem concordou e tentou pensar em um desejo realmente bom. Depois de um tempo pensando, exclamou para o gênio:
- Fui casado e já me divorciei quatro vezes. Minhas esposas sempre disseram que eu não me importava com elas e que sou um insensível. Então, meu desejo é que eu possa entender as mulheres! Saber como elas se sentem por dentro e o que estão pensando quando não falam com a gente… Saber por que ficam emburradas por qualquer descuido nosso, saber por que elas choram sem motivo aparente, saber por que querem sempre discutir a relação, saber o que elas realmente querem quando não dizem nada… enfim, saber como fazê-las realmente felizes…
O gênio retruca: - Você quer a ponte com duas ou quatro pistas?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Entrevista - Frei Betto

Sete anos após deixar o governo Lula, no qual foi assessor especial da Presidência, o escritor e assessor de movimentos sociais Frei Betto é um entusiasta da experiência do PT no poder e crítico ferrenho dos dirigentes da sigla. Em meio à crise política e ao impacto do lançamento do programa Brasil sem Miséria, Frei Betto falou ao Estado. Ele elogiou o plano social e não poupou ataques à direção petista no caso Antonio Palocci: "Já não encontro os dirigentes dando consultoria a movimentos sociais".

Entrevista concedida a Fernando Gallo - O Estado de S. Paulo, em 12-06-2011

Como o sr. analisa a saída de Antonio Palocci do governo?
O governo demorou a agir diante da crise que se instalou a partir da constatação desse surpreendente aumento do patrimônio. Isso gerou muitas dúvidas. Dilma, diante de casos como esse, deveria seguir o exemplo do ex-presidente Itamar Franco, que licenciou o Hargreaves (Henrique Hargreaves, ministro da Casa Civil acusado de irregularidades no cargo) até que as coisas ficassem claras. Comprovada sua total inocência, foi reintegrado. No caso do Palocci, houve uma suspeita que os próprios correligionários abraçaram. O fato de a Executiva do PT não emitir uma nota de apoio, de solidariedade, era sintoma de que no partido pairavam dúvidas. Ali foi o momento em que Dilma deveria ter tomado a providência de afastá-lo.
O episódio pode ser considerado um indicativo de que o PT mudou seus ideais ao virar governo?
Exatamente. Nunca me filiei a nenhum partido político, mas ajudei a construir o PT, assessorei muitos movimentos que formaram lideranças que hoje integram o PT e a política profissional. Lamento que os dirigentes do PT hoje deem consultoria aos donos do dinheiro. Andando pelo Brasil, já não encontro esses dirigentes prestando consultoria a movimentos sociais.
O PT revisou o seu projeto?
Ah, sim! No conjunto do partido, salvo exceções de honrosos militantes, o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Quando se estende demasiadamente o bloco de alianças, há que fazer concessões. Elas levaram o PT a ter grande prestígio eleitoral, mas não é mais, infelizmente, o partido representativo dos movimentos sociais. Já não identificam nele o partido que vai enfrentar as forças que impedem reformas de estrutura no Brasil.
Em um olhar mais geral, para além da crise, que avaliação o sr. faz do governo Dilma?
Ainda é muito cedo para uma avaliação. A equipe de governo é boa. Tem muita gente que vem do governo Lula, já calejada. O governo está mantendo a política externa do Lula, que eu considero brilhante, e está aprofundando os programas sociais, o que é muito positivo. Não gosto do lema "País rico é país sem miséria". Devia ser "país digno", não "rico". Os Estados Unidos são ricos, mas têm 30 milhões de miseráveis. A China é rica e tem milhões de miseráveis.
O sr. vê alternativa fora das alianças feitas pelo PT?
É difícil governar sem alianças, concordo. Mas elas têm de ser feitas em cima de princípios, não de interesses. Quando os interesses aparecem, como no caso do Código Florestal, as divergências também transparecem. A posição do PT e a do governo não coincidiam com a de muitos membros da base, sobretudo a do PMDB.
Como viu a atuação do governo na votação do Código Florestal?
O PT ficou isolado, mas nesse assunto Dilma tem muita clareza e firmeza. Ela sabe que o Brasil vai abrigar no ano que vem uma importante conferência ambiental. Ela foi a Copenhague acompanhando Lula e assumiu compromissos internacionais. Espero que continue com essa posição firme de não ceder frente às flexibilizações da proposta aprovada na Câmara, que parecem prejudicar o meio ambiente e favorecer os desmatadores, aqueles que praticam assassinatos no campo, invadem a Amazônia com o agronegócio e derrubam árvores para fazer pasto.
O sr. já criticou o governo por suspender o kit anti-homofobia.
Pode ser um recuo tácito, mas o tema está em pauta. Você não pode ignorar uma questão que atinge milhões de brasileiros que têm uma opção de vida amorosa e sexual. Como a questão do aborto, também. O governo pode colocar debaixo do tapete, mas uma hora ela vai ter de vir à tona. São questões relevantes para a sociedade no mundo inteiro. Como um feliz ING que sou hoje - "indivíduo não governamental" -, penso que esses temas terão de ser encarados. Espero que Dilma, que tem passado de combatividade, venha a acabar com tabus e trazer mais luz a esses temas.
O governo se omitiu no assassinato dos líderes do Pará?
Para ser generoso, acho que agiu muito timidamente. Tinha de ter mandado ministros, o do Desenvolvimento Agrário, a dos Direitos Humanos. Deveriam ter ido à região, participado dos enterros, cobrado pessoalmente do governo do Pará, que não abre inquéritos. Deveria ter tido atuação mais rigorosa. No enterro do Chico Mendes, foi todo mundo. As pessoas que estão no governo se mexiam. As coisas são vistas pela TV, pelo jornal. Isso é inconcebível. Os mandantes e assassinos estão convencidos da impunidade. Você tem 98 mandantes e assassinos identificados e apenas um preso, que é o Bida, assassino da Dorothy Stang. Liberou geral o faroeste.
Apesar das críticas, o sr. disse que a experiência do PT no poder é a melhor da história brasileira.
Considero o governo Lula o melhor da história republicana, porque gosto muito do governo de d. Pedro II. Espero que o governo Dilma seja o prosseguimento do governo Lula, principalmente por causa dos avanços do ponto de vista social e à política externa. Minha expectativa é de que o governo consiga transformar políticas de governo, como o combate à miséria e a questão ambiental, em políticas de Estado. Que promova as sonhadas reformas de estrutura: política, tributária, agrária. Isso é urgente. Desde o início dos anos 60 o Brasil clama por isso.
Qual a sua avaliação sobre o plano Brasil sem Miséria?
Vejo com bons olhos. Ao menos no papel é um avanço em relação ao Bolsa Família. Espero, e desconfio, como bom mineiro, que o Brasil sem Miséria seja uma reedição do Fome Zero, que era um programa emancipatório. O Bolsa Família é um programa compensatório. Prova disso é que esse programa até agora não tem porta de saída. Quem entra não sabe como sair assegurando a própria renda e condições dignas de vida. O Brasil sem Miséria não só aumenta o número de famílias e os benefícios de três para cinco filhos até 15 anos, como abre perspectivas de funcionamento da porta de saída. Vamos ver na prática se funciona.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Matança na Amazônia Continua - Enquanto Isso os Políticos Seguem Brigando em Brasília pela Aprovação do novo Código Florestal

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) informou nesta terça-feira, 14/06,  que mais uma vez, o Pará foi palco da morte de um trabalhador rural. Obede Loyla Souza, de 31 anos, foi assassinado no último dia 09/06 próximo a sua residência  no município de Pacajá. Esta é a quinta morte em decorrência de conflitos no campo. Ele era casado e pai de três filhos e teria denunciado a extração ilegal de madeira na região. A CPT informou que ele foi morto com um tiro no ouvido. Obede, que pode ter sido executado com uma espingarda, teria sido surpreendido em sua casa e levado para um local a 500 metros de distância. Ali, teria sido obrigado a se deitar de lado e atingido no ouvido. Os pistoleiros teriam mandado a vítima se deitar de lado, encostado a boca da espingarda em seu ouvido e a disparado. Ele estava sozinho em sua casa.
A CPT informou que, após a liberação para o sepultamento, a Força Nacional suspendeu o enterro e o levou para perícia em Belém (PA). De acordo com a comissão, não há informações sobre as razões que levaram à morte de Obede. Mas testemunhas contaram que, entre janeiro e fevereiro, o agricultor discutiu com representantes de madeireiros na região. Segundo a CPT, outros dois trabalhadores rurais da região, que também discutiram com os mesmos representantes de madeireiras, correm risco de morrer.
Informações obtidas pela comissão apontam que, no dia do assassinato de Obede, uma caminhonete com quatro pessoas entrou no Acampamento Esperança - onde morava o agricultor. O presidente do Projeto de Assentamento Barrageira e tesoureiro da Casa Familiar Rural de Tucuruí, Francisco Evaristo, disse que viu a caminhonete e considerou o fato estranho. Como Obede, ele também é ameaçado de morte.
Ao final da reunião, a presidente determinou o envio de homens da Força Nacional de Segurança ao Pará. Os homens chegaram ao estado no último dia 07/06 e devem permanecer no local por tempo indeterminado, segundo as autoridades brasileiras
A lista de pessoas ameaçadas, segundo a CPT, contabiliza mil nomes. O documento já foi entregue às autoridades brasileiras e também estrangeiras. De acordo com a Pastoral da Terra, desde 1996 foram 212 assassinatos em conflitos por terras no Pará.
No final de maio, uma série de assassinatos puseram em evidência a violência no campo na Amazônia. Em 24 de maio, o casal de ambientalistas e líderes do projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira, José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, foram mortos em uma emboscada no município paraense de Nova Ipixuna. Posteriormente, outro assentado, o agricultor Herenilton Pereira dos Santos, que seria uma das testemunhas do assassinado do casal, também foi morto. Já em Rondônia, em 27 de maio, o líder camponês Adelino Ramos, o Dinho, foi morto a tiros em Vista Alegre do Abunã, região de Porto Velho.
Façam alguma coisa!!!!!!!!

FHC e as Drogas: Atitude de Estadista - Élio Gaspari

Dizem que um governante simples pensa na próxima eleição. Mas um estadista pensa na próxima geração. É por isso que a decisão de Fernando Henrique Cardoso de se expor em um polêmico documentário, que defende uma nova visão sobre as drogas, é uma atitude de estadista.

Vi que o PSDB estava temeroso com os efeitos das posições de Fernando Henrique Cardoso em relação às drogas, enfatizada no documentário. Isso porque o partido, como se sabe, está ligado à próxima eleição, o que é compreensível.
Existe uma aposta (correta, no meu modo de ver) de que no futuro vai vencer a visão de que drogas é um problema de saúde pública, e que a repressão tem sido, em muitos casos, mais um problema do que uma solução. É preciso ter coragem, sendo um político, para dizer isso agora.
Qualquer nação precisa de políticos que não se guiem apenas pelas pesquisas de opinião. Mas digam o que não queremos ouvir. Alguns pagam um preço muito caro no presente, mas só são reconhecidos no futuro.
A descriminalização da posse de maconha para o consumo pessoal pode ser uma das saídas para reduzir o dano que as drogas trazem à sociedade. É o que defende o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A sugestão foi dada, ontem, na abertura da 3ª Reunião da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, no Rio de Janeiro.
A proposta está na declaração apresentada pela comissão e será levada para a próxima reunião da Organização das Nações Unidas, que será realizada em março, em Viena, na Áustria, com o objetivo de avaliar as políticas de drogas em todo o mundo.

Sugestões:

Além da descriminalização da maconha, a comissão tem várias propostas. Veja quais são as principais:

Diretrizes:

- Tratar o consumo de drogas como uma questão de saúde pública.

- Reduzir o consumo por meio de ações de informação e prevenção.

- Focar a repressão sobre o crime organizado.

Iniciativas:

- Transformar os compradores de drogas no mercado ilegal em pacientes do sistema de saúde.

- Avaliar, com um enfoque de saúde pública e fazendo uso da ciência médica mais avançada, a conveniência de descriminalizar a posse da maconha para consumo pessoal.

- Reduzir o consumo por meio de campanhas inovadoras de informação e prevenção que possam ser compreendidas e aceitas pela juventude.

- Focar as estratégias repressivas na luta implacável contra o crime organizado.

- Reorientar estratégias de repressão a cultivo de drogas ilícitas.

Quem são: A Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia é composta por 17 personalidades:
César Gaviria (Colômbia); Ernesto Zedillo (México); Fernando Henrique Cardoso (Brasil); Ana María Romero de Campero (Bolívia); Antanas Mockus (Colômbia); Diego García Sayán (Peru); Enrique Krauze (México); Enrique Santos Calderón (Colômbia); General Alberto Cardoso (Brasil); João Roberto Marinho (Brasil); Mario Vargas Llosa (Peru); Moisés Naím (Venezuela); Patrícia Marcela Llerena (Argentina); Paulo Coelho (Brasil); Sergio Ramirez (Nicarágua); Sonia Picado (Costa Rica); Tomás Eloy Martínez (Argentina);
De acordo com o relatório intitulado “Drogas e Democracia: rumo a uma mudança de paradigma”, apresentado ontem pela comissão, as políticas repressivas de combate às drogas na América Latina fracassaram. “É preciso falar com todas as letras: a guerra às drogas é fracassada”, afirma o membro da comissão e diretor executivo da organização não governamental Viva Rio, Rubem César Fernandes. Segundo Fernandes, na última década o Brasil deixou de ser um país apenas de trânsito para se transformar em um consumidor. De acordo com ele, ainda, a produção e o preço das drogas não diminuíram ao mesmo tempo em que aumentou a variedade delas. “O mercado de consumo funciona à revelia da repressão. Os lucros são tão altos que os traficantes conseguem absorver qualquer tipo de perda com apreensão”, afirma.
O grupo formado por 17 personalidades e liderado por Fernando Henrique Cardoso e pelos ex-presidentes César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México) sugere ainda que a saída está em enfocar o consumo de drogas como um tema de saúde pública e em trabalhar na redução do uso. De acordo com o estudo, isso ajudaria a diminuir a produção e a desmantelar redes de traficantes.
Neste caminho, a nova lei anti-drogas (11.343/2006), que abrandou a punição para os usuários de drogas no Brasil, é apontada por Fernandes como um avanço. Segundo ele, entretanto, é necessário mais. “É um bom começo, mas tem de avançar mais”, diz.
A posição da comissão, contudo, é criticada pelo diretor de inteligência da secretaria municipal antidrogas de Curitiba, Hamilton Klein. Segundo Klein, a nova lei anti-drogas foi um passo para trás. “Só conseguimos combater as drogas com base em um tripé: repressão, prevenção e recuperação”, explica. De acordo com ele, o problema é que os governos trabalham, normalmente, apenas em uma frente: a repressão.
“Fica tudo na conta da repressão. Os trabalhos de prevenção e recuperação estão começando agora”, afirma. Klein lembra, ainda, que países que tiveram ações de liberação de drogas voltaram atrás. “Na Holanda, esse é um problema de saúde pública, eles se arrependeram e estão tendo que voltar atrás”, diz.