Amauri Queiroz

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Réia, Cronos, Zeus e Latona



Existe uma mulher com olhar iluminado
Seus olhos brilham como as estrelas
É a senhora dos mistérios
Deusa da alquimia

Por onde passa deixa um rastro de luz e beleza
Encantando-nos, pobres mortais
Como um prelúdio de Frédéric Chopin

Sua imensa ternura e poder
Deixa-nos extasiados
Sonhando com o paraíso
Que é adormecer em seus braços

Latona, mãe de Apolo
Mulher de Zeus
Réia mãe dos Deuses
Esperamos no colo de Cronos
Rodeado por elementares
Pela poção mágica do amor
(Amaury Queiroz)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Bibi Aisha Sobreviveu ao Talibã
















Quando o rosto da jovem afegã Bibi Aisha (“bibi” significa algo como “senhora” em urdu), de 18 anos, estampou a capa da edição da revista americana Time, sua beleza ficou em segundo plano, ofuscada pela chocante ausência de seu nariz, extirpado a faca pelo seu marido. Na semana passada, Aisha apareceu em público pela primeira vez usando uma prótese e pudemos, finalmente, prestar atenção ao seu sorriso. Esther Hyneman, da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs, que esteve com Aisha na Califórnia, na semana passada, diz que ela está feliz com o novo visual, embora ainda não tenha conseguido deixar para trás o trauma da violência que sofreu. “Vai levar tempo para que ela se recupere, mas somos muito otimistas porque ela é uma sobrevivente. Muitas pessoas teriam morrido naquela situação”, diz Esther. Nessa entrevista, Esther conta que comprou um mapa múndi para mostrar a Aisha onde fica seu país e onde ela está agora, os Estados Unidos, e avalia a situação das mulheres no Afeganistão, onde ela passa seis meses por ano fazendo trabalho humanitário.

Lendo as muitas reportagens escritas sobre a história de Bibi Aisha, notei que há várias informações desencontradas e inconsistentes. Sua idade, quem a socorreu depois de agredida pelo marido e até qual foi a participação do Talibã na agressão. A que se pode atribuir essas diferenças?


Esther Hyneman Não li todas as reportagens que saíram sobre ela, mas a maioria das entrevistas deve ter sido feita por meio de tradutor, o que facilita mal entendidos, e muitas devem reproduzir de maneira errônea o que foi publicado por outros veículos. Os fatos básicos sobre Aisha são muito simples: ela foi vítima de um costume tribal chamado “baad”, em que uma propriedade é dada pela família que cometeu uma ofensa ou um crime a outra família. A propriedade é uma forma de compensação pelo crime ou ofensa. Pode ser dinheiro, terras ou até mesmo, e muito frequentemente, jovens meninas. Aisha foi dada como compensação pelo assassinato que seu tio cometeu contra um membro da família.

Ela tinha 10 anos quando isso aconteceu?

Esther Hyneman - Não sabemos exatamente que idade ela tinha, mas era bem jovem. Ela foi maltratada – como essas garotas sempre o são – e escravizada. Depois de anos de abuso em que apanhava com frequência, ela fugiu. Não temos certeza, mas talvez um vizinho a tenha ajudado. Ela conseguiu chegar a Kandahar e foi presa pela polícia porque mulheres não podem andar sozinhas pela rua – é uma regra em todo o país, mas especialmente em áreas como Kandahar, controlada pelo Taleban. De alguma maneira, seu pai descobriu que ela estava presa em Kandahar e persuadiu o comandante a libertá-la. Então, ele a levou de volta à mesma família a que tinha sido dada, à família de seu marido. Ele deveria saber que estava levando sua filha para a tortura e a morte, uma vez que a família de seu marido era taleban.

Esther Hyneman - Li um artigo que questionava se o marido dela era taleban. Essa informação é confirmada?


Esther Hyneman - Sim, é confirmada. Por favor, publique-a. Estou na Califórnia, vim até aqui para ver Bibi e ontem ela ficou transtornada quando alguém mencionou o Taleban. Ela começou a gritar com toda força sobre o que eles haviam feito com ela. Não há nenhuma dúvida quanto a isso. O artigo da revista The Nation que questiona isso está mentindo. Aisha foi torturada por uma família taleban. Ela foi levada para uma área isolada, imobilizada por pessoas da própria família ou amigos ou vizinhos do marido, e seu marido ou o irmão dele, não sabemos ao certo, cortaram fora seu nariz e suas orelhas. Ela foi então abandonada para morrer sangrando.

Em uma entrevista, a senhora disse que a punição de Aisha provavelmente tem origem em um dizer pashtun (uma das tribos que povoam o Afeganistão) que diz que o homem cuja mulher foge perdeu o nariz.É possível que venha desse velho ditado popular?


Esther Hyneman - É uma punição que acontece em vários lugares do país. Não sei quão prevalente ela é, mas vimos outros casos. Não acredito que seja necessariamente restrita ao Afeganistão. Depois de ser punida, Bibi desmaiou. Ela estava sangrando muito, não conseguia nem enxergar direito. Achou até que fosse água, num primeiro momento. Ela conseguiu ir até sua vila e, pelo que entendi, seu tio não a deixou entrar. Então alguém, talvez seu pai, levou-a para a base militar americana, onde ela recebeu tratamento médico. Quando ela estava melhor, eles nos pediram para abrigá-la. E ela ficou conosco por nove meses até que nós arranjamos o tratamento médico e cirúrgico nos Estados Unidos com a Fundação Grossman para Queimados.

Como ela tem se recuperado desde que você a conheceu, no Afeganistão?

Esther Hyneman - Ela tem ido muito bem, mas qualquer pessoa que tenha passado pelo que ela passou, ser dada pela família, tratada como uma escrava, torturada, sofre de síndrome de estresse pós-traumático. Vai levar tempo para que ela se recupere, mas somos muito otimistas, porque ela é uma sobrevivente. Muitas pessoas teriam morrido naquela situação, não teriam sido capazes de chegar até o vilarejo. Ela conseguiu se manter viva. Ela nunca esteve na escola, não tem informações concretas sobre o mundo, mas é extremamente inteligente. Ela tem um tipo de inteligência inata. Ela é muito esperta, espirituosa e falante. Ela tem qualidades que vão ajudá-la a conseguir uma vida produtiva. Ela só precisa de tempo para se recuperar.

Quando deve acontecer a cirurgia para a reconstrução do nariz de Bibi?

Esther Hyneman - Não sabemos. Ela precisa de um período de repouso porque o tratamento vai ser um outro tipo de trauma que ela vai enfrentar. São várias cirurgias e a Fundação Grossman está avaliando se ela está psicologicamente pronta para elas. Não existe um calendário, mas ela está recebendo cuidados de quem a ama e está feliz, aproveitando sua estadia. Ela tem agora a prótese de nariz e está se sentindo ótima ao aparecer em público. Ela é uma jovem linda.

Como ela se sente ao saber que sua foto foi reproduzida no mundo todo?

Esther Hyneman - Foi um pouco demais para ela. Aisha é jovem mulher que nasceu em um vilarejo. Comprei para ela um mapa do mundo para mostrar onde ficava o Afeganistão, onde ficava Dubai, onde seu avião fez escala antes de parar em Nova York, onde era a Califórnia, onde ela estava. Nós pusemos o mapa no chão e exploramos isso porque ela não sabia essas coisas sobre as quais nem pensamos.

Li que a irmã de Aisha pode estar ainda com a família de seu marido no Afeganistão. Isso é verdade?

Esther Hyneman - Supomos que a irmã dela esteja lá e nos preocupamos com isso, mas não há como sabermos se ela está lá e como ela está porque é uma área controlada pelo Taleban e, por isso, muito perigosa. O rosto de Bibi na capa da Time é um alerta do que pode acontecer se o Taleban dominar o Afeganistão. E se isso acontecer, o país vai se tornar refúgio para grupos terroristas que podem repetir atos como o 11 de setembro. Se isso acontecer, os custos de vidas humanas e de dinheiro serão ainda maiores do que já foram até agora. Nossa mensagem para o mundo democrático é que ele está sob ameaça aqui.

Muitas pessoas afirmam que muito pouco mudou no Afeganistão com a chegada dos americanos porque líderes fundamentalistas islâmicos que concordam com os talebans em vários aspectos continuam no governo. Qual a sua opinião sobre isso?

Esther Hyneman - Houve progressos nesses últimos anos. Pode não ser o suficiente, mas é incrível num país que ficou em guerra por 30 anos e estava sob o domínio de um regime tabelan brutal. Agora a maioria das pessoas do país quer um governo transparente, quer educação para suas crianças. As mudanças são óbvias. Nós somos uma organização sem fins lucrativos no Afeganistão e temos cinco centros para a educação das famílias e cinco abrigos. Isso é progresso. Nós ganhamos casos em favor das mulheres na Justiça. Há uma nova lei para a eliminação da violência contra a mulher assinada este ano pelo presidente Hamid Karzai que nos ajuda a defender as mulheres na Corte. Isso é progresso. Temos mais de 150 funcionários, todos eles afegãos, e eles arriscam suas vidas e as de suas famílias porque estão comprometidos com a causa de um governo progressista, leis progressistas. Pesquisas mostram que os afegãos querem uma vida melhor, querem que mais escolas sejam construídas. Se nós continuarmos no Afeganistão, o país pode se tornar um modelo do que é possível ser feito. Nós não somos invasores, os talebans são os invasores.

Agora Aisha está nos Estados Unidos. Há planos de que ela volte para o Afeganistão?

Esther Hyneman - Estamos vivendo um dia de cada vez. Não temos nenhuma ideia de como será a vida de Aisha. Temos que esperar para ver.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Racismo, Xenofobia e Diretos Humanos



“Vocês riem de mim porque eu sou diferente eu rio de vocês porque são todos iguais.”

Bob Marley



Acontece todos os anos, no dia 27 de Janeiro, o “Dia Internacional de Comemoração das Vítimas do Holocausto”, ou “O Dia da Memória”. Foi instituído pelas Nações Unidas, para que a xenofobia, a perseguição à estrangeiros e a intolerância racial não propiciem nunca mais horrores como o do Holocausto.
O Papa bento XVI nesse dia, declarou que “o ódio racial e religioso e a xenofobia, geraram deportações, prisão e morte nesses lugares aberrantes”. Continua o Sumo Pontífice: “Esses fatos, em particular o drama do Holocausto, que atingiu o povo judeu, incitam a um respeito cada vez mais decidido pela dignidade de toda a pessoa, para que os homens se percebam como uma única grande família”. Mais de 1 milhão de homens, mulheres e crianças, entre os quais um milhão de judeus em toda a Europa, morreram no campo de Auschwitz, instalado em 1940 na Polônia ocupada e libertado em 27 de Janeiro de 1945 pelo exército soviético.
Após 65 anos, as feridas ainda não sararam. O anti-semitismo não desapareceu, e por isso se cultiva a memória pública do Holocausto. O início dessa estória de horror, tem como protagonista Adolf Hitler, que era extremamente nacionalista e via nos estrangeiros um fator de corrupção do povo e da vida alemã. A partir dessa idéias surgiu o nazismo, um regime totalitário, que se baseava na mística do heroísmo do povo alemão, desprezando-se então todos os povos que viviam na Alemanha ou no seu entorno.
Ainda hoje existem movimentos nazistas em todo o mundo. Precisamos vigiá-los e não dar tréguas para que se instalem novamente. É comum na Alemanha a perseguição aos estrangeiros, culminando até mesmo em assassinatos, por grupos de pessoas que não admitem a idéia de conviverem com o diferente.
Minas Gerais é um estado pródigo de grandes seres humanos, que contribuíram de maneira inequívoca para o engrandecimento da humanidade. Se a espécie humana pisou na lua em 1969 e pisará em Marte em 2050, agradeçam a um mineiro que nasceu bem aqui pertinho, no Sítio Cabangu, hoje Município de Santos Dumont. Alberto Santos Dumont recebeu a Ordem de Cavaleiro da Legião de Honra da França, país que o recebeu e o apoiou para que pudesse inventar o avião. Dividiu o prêmio, que ganhou pela façanha de voar com um dirigível mais pesado que o ar, com os pobres de Paris. Podemos também falar em um negro nascido em Três Corações que encantou o mundo com sua habilidade no campo esportivo. Pelé, o “Rei do Futebol”, o “Atleta do Século”, incensado por reis, rainhas e personalidades de todo o mundo, deixou a vida tricordiana e foi recebido em Bauru e logo após Santos, que o recebeu de braços abertos e lhe propiciou o afeto e a acolhida necessários para que ele atingisse o estrelato.
Ary Barroso, cidadão de Ubá, é um dos poucos brasileiros (talvez o único) que foi membro da Academia de Ciências e Arte de Hollywood. Mineiro versátil trabalhou inclusive com Walt Disney, que o indicou para a academia. Ary Barroso também compôs a Aquarela do Brasil, canção que junto com Garota de Ipanema são as mais executadas fora do Brasil em todos os tempos. Ary foi para o Rio de Janeiro aos 17 anos, onde desenvolveu seu talento e hoje está eternizado no bairro do Leme, início da praia de Copacabana, com um busto de bronze e uma rua com seu nome, o que muito orgulha os moradores do lugar.
Poderíamos escrever uma enciclopédia com tantos mineiros ilustres que deixaram Minas e foram recebidos em outras cidades: Juscelino, Telê Santana, Vital Brasil, Carlos Chagas, Darcy Ribeiro, o cantor Vando e também Jorge Castanheira, um Congonhense que preside a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e coordena com muita competência aquele que é chamado “o maior espetáculo da terra”. Todas essas pessoas deixaram uma grande contribuição para a humanidade. É muito importante nos mirarmos nos bons exemplos e pautarmos nossa vida pela acolhida de todos os irmãos, pois, Jesus Cristo sempre pregou a igualdade entre todas as pessoas, através do carinho, da hospitalidade, da amizade e do amor.
Hitler era artista, pintava quadro e quando jovem, chegou a sobreviver de sua arte. Sua contribuição, porém para a história, foram os seis milhões de judeus assassinados por seu exército, tudo em nome da xenofobia e da intolerância ao próximo.
Precisamos evitar esse tipo de comportamento, pois, nossa casa é o mundo e o mundo é nossa casa.

As Mulheres e o Poder






Celina Guimarães foi a primeira eleitora no Brasil e na América latina. Votou em 5 de Abril de 1828 em Mossoró no Rio Grande do Norte, que foi o primeiro estado brasileiro a abolir a distinção de sexo para o voto. Os votos femininos foram anulados pela Comissão de Poderes do Senado. Somente em 1932 o Código Eleitoral permitiu o voto feminino no Brasil.

Luíza Alzira Soriano foi a primeira mulher a se eleger prefeita no Brasil e na América Latina, no ano de 1928, no município de Lajes, no (novamente) Rio Grande do Norte terra de pioneira do feminismo no Brasil e foi provavelmente a primeira mulher a romper os limites entre os espaços público e privado publicando textos em jornais, na época em que a imprensa nacional ainda engatinhava. Nísia também dirigiu um colégio para moças no Rio de Janeiro e escreveu livros em defesa dos direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.

As primeiras mulheres eleitas deputadas estaduais foram Maria do Céu do RN (novamente), Antonieta de Barros (SC), Lili Lages (AL), Maria Luiza Bittencourt (BA), Maria Tereza Azevedo e Maria Tereza de Barros por SP, todas eleitas em 1934.

Carlota de Queiroz foi a primeira deputada federal eleita no Brasil. Eleita em 1934, legislou até 1937, quando foi cassada por Getúlio Vargas.

Eunice Michiles do Estado do Amazonas foi a primeira senadora a exercer o cargo no parlamento brasileiro, em 1979.

A primeira mulher a governar um estado brasileiro foi Iolanda Lima Fleming, que governou o Acre de de 15 de maio de 1986 a 15 de maio de 1987. A segunda mulher governadora foi Roseane Sarney e a terceira Benedita da Silva, também a primeira senadora negra eleita no país.
A primeira ministra foi Maria Ester Ferraz que foi Ministra da Educação do presidente general João Batista Figueiredo.
Em 2010 Dilma Roussef foi a primeira mulher eleita para presidente do Brasil.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


A Derrota das Elites



Leonardo Boff


Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história da política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu,”capado e recapado, sangrado e ressangrado”. Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política esocialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional,sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os paises mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta. Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fôra construida com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam:”façamos nós a revolução antes que o povo a faça”. E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de um outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado. Escândalo dos escândalos para as mentes súcubas e alinhadas aos poderes mundiais: um operário, sobrevivente da grande tribulação, representante da cultura popular, um não educado academicamente na escola dos faraós, chegar ao poder central e devolver ao povo o sentimento de dignidade, de força histórica e de ser sujeito de uma democracia republicana, onde “a coisa pública”, o social, a vida lascada do povo ganhasse centralidade. Na linha de Gandhi, Lula anunciou: “não vim para administrar, vim para cuidar; empresa eu administro, um povo vivo e sofrido eu cuido”. Linguagem inaudita e instauradora de um novo tempo na política brasileira. O “Fome Zero”,depois o “Bolsa Família”, o “Crédito Consignado”, o “Luz Para Todos”, o “Minha Casa, Minha Vida, a “Agricultura Familiar, o “Prouni”, as “escolas profissionais”, entre outras iniciativas sociais permitiram que a sociedade dos lascados conhecesse o que nunca as elitese conômico-financeiras lhes permitiram: um salto de qualidade. Milhões passaram da miséria sofrida à pobreza digna e laboriosa e da pobreza para a classe média. Toda sociedade se mobilizou para melhor. Mas essa derrota inflingida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um “não retorno definitivo” e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse.Terminou o longo amanhecer.Houve três olhares sobre o Brasil. Primeiro, foi visto a partir da praia: os índios assistindo a invasão de suas terras. Segundo, foi visto a partir das caravelas: os portugueses “descobrindo/encobrindo”o Brasil. O terceiro, o Brasil ousou ver-se a si mesmo e aí começou a invenção de uma república mestiça étnica e culturalmente que hoje somos. O Brasil enfrentou ainda quatro duras invasões: a colonização que dizimou os indígenas e introduziu a escravidão; a vinda dos povos novos, os emigrantes europeus que substituirem índios e escravos; a industrialização conservadora de substituição dos anos 30 do século passado mas que criou um vigoroso mercado interno e, por fim, a globalização econômico-financeira, inserindo-nos como sócios menores. Face a esta história tortuosa, o Brasil se mostrou resiliente, quer dizer, enfrentou estas visões e intromissões, conseguindo dar a volta por cima e aprender de suas desgraças. Agora está colhendo os frutos. Urge derrotar aquelas forças reacionárias que se escondem atrás do candidato da oposição. Não julgo a pessoa, coisa de Deus, mas o que representa como ator social. Ceslo Furtado, nosso melhor pensador em economia, morreu deixando uma advertência, título de seu livro "A Construção Interrompida" (1993): ”Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta no devir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromer o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35). Estas não podem prevalecer. Temos condições de completar a construção do Brasil, derrotando-as com Lula e as forças que realizarão o sonho de Celso Furtado e o nosso.

Leonardo Boff é Teólogo e autor de Depois de 500 anos: que Brasil queremos?

O Aborto e as Eleições


Em Busca de um Direito Justo

O aborto envolve um dilema: uma escolha impossível e uma decisão necessária. Como transformar esta questão num "direito justo" para o povo brasileiro? Embora o reaparecer desta questão fundamental se dê sob forma travestida de interesses eleitoreiros, não desejamos deixar passar a oportunidade de elevá-la ao que ela tem de real e de urgente, e que, portanto, insiste como questão a ser pensada, elaborada na sua complexidade, e talvez só então decidida. Como bem o disse Elio Gaspari, em seu artigo de 9 de outubro no GLOBO, a prática do aborto não envolve apenas uma questão de saúde pública, mas fundamentalmente o conflito entre o direito à vida e o direito da mulher à liberdade de interromper sua gravidez em até doze semanas. Só aqui já estão nomeados dois titãs da experiência humana: o direito à vida e o direito à liberdade. Entretanto, o debate público trazido pela mídia em torno dos candidatos está tentando acorrentá-los com os grilhões maniqueístas e excludentes da apropriação moral, religiosa ou tecnocrata em termos de saúde. Ora, isso significa despir a questão do aborto de sua tragicidade, que sempre é vivida, independentemente de sua intensidade, no conflito íntimo de cada mulher ao se ver diante dessa situação-limite, dessa escolha impossível, mas que, paradoxalmente, lhe exige uma decisão rápida. Ou seja, não minimizemos a coisa, nem banalizemos algo que tem a mesma natureza do antagonismo entre Eros e Tanatos, nossas pulsões de Vida e Morte, o que levou Freud a comentar com certa ironia em "O mal-estar da civilização": "É este duelo de titãs que nossas babás tentam aplacar com suas cantigas de ninar." Ou seja, somos efetivamente incapazes de fazer face ao duelo que agita e dilacera nossa alma desde a mais tenra idade. A experiência humana é trágica, pois é vivida, segundo o criador da psicanálise, em termos deste antagonismo que cria um estado de conflito permanente, com pouca ou nenhuma chance de apaziguamento, e que se encontra exacerbado em certas situações, como achamos ser o caso em questão. O conflito existe, embora muitas vezes disfarçado sob uma capa pragmática, ou programática. E é cruel, principalmente se lembrarmos que, em sua base, trata-se de uma decisão que cada mulher é obrigada a tomar sozinha, aumentando o nível de desamparo e angústia a que se vê submetida ao ter que decidir o indecidível, além de lhe caber lidar, também solitariamente, com o peso e a dor dos fantasmas correlativos a este ato, que terão efeitos muitas vezes sobre os filhos que virão a seguir, tornando-os muitas vezes substitutos inconscientes daqueles que foram impedidos de nascer. A questão do aborto é uma questão política, se nos referirmos ao sentido maior deste termo: o de dar valor à polis, à vida em comum dos cidadãos, à vida do outro, sendo este outro, no caso, tanto aquele que é gerado em situações de imaturidade e precariedade afetiva ou financeira, quanto os que o geraram, levando em conta suas expectativas, suas condições, sua liberdade de decidir. Evidentemente, isto suscita uma articulação necessária com a responsabilidade que se aprende a ter através de uma educação humanizante onde a sexualidade humana poderá ser tratada como meio de vida e não de morte. Esta questão política levantada pela possibilidade de uma prática discriminalizada do aborto em nosso país solicita a elaboração de leis que tenham como ideal um "direito justo", capaz de levar em consideração a convivência sempre problemática entre os seres humanos, e que é exacerbada pelas não menos problemáticas relações entre o Direito e a Justiça. Pois o Direito não é a Justiça, sendo apenas um instrumento, uma tentativa, muitas vezes vã, de se fazer justiça. Em lugar de nos paralisar, este saber diferencial nos impele a participar da dimensão criativa da justiça em nosso país, no exercício de um direito em transformação, num país em transformação, implicando inclusive a retomada transformadora dos currículos de educação.
Texto da psicanalista Glaucia Dunley

Comer, Rezar, Amar


“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama”

(Vinícius de Morais)

No filme Comer, Rezar, Amar a protagonista, uma escritora de razoável sucesso decide jogar sua vida, incluindo-se aí um casamento sólido e estável, para atirar-se pelo mundo em busca de ‘outro caminho’. Resolve ir para a Itália e apreciar durante um bom período a culinária e a cultura italiana. Depois parte para a Índia em busca de iluminação espiritual e fecha o périplo na Indonésia, especificamente Bali, onde se entrega a arte do ‘dolce far niente’ e aos prazeres do amor.
O ponto principal da estória é o que certamente deve atormentar boa parcela das mulheres envolvidas em seus relacionamentos amorosos: viver sem amar e ser amada o suficiente, não querer separar para não magoar o parceiro e a família, sair da zona de conforto do casamento e de um círculo social consolidado, mergulhar no mundo incerto e assustador das mulheres separadas e sozinhas. Há uma cena emocionante em que a protagonista do filme cai em prantos no chão do banheiro, lamentando pela tristeza que imporá ao homem que a ama, mas que não a faz feliz o necessário.
O filme, ou a estória de Liz Gilbert é um libelo ao desapego e à coragem de revolvermos nossas vidas. Liz demole as coisinhas miúdas que tecem as tramas do casamento como um trator de esteira. O marido incrédulo, como um pugilista grogue no centro do ringue, sem compreender que ela não o ama mais, continua acreditando que está tudo bem e que ela apenas teve um dia péssimo. Liz não podia dar explicações até porque não as possuía. Sentia-se como Ícaro voando com suas asas de cera rumo ao sol. Em seu caso, o sol era o casamento em chamas, que cotidianamente derretia seu amor (suas asas de cera), atirando-a de maneira inexorável ao duro solo da realidade.
Liz cai no mundo tentando se encontrar. Sua saga lembra a música do inesquecível Candeia e regravada por Marisa Monte que diz: ”Deixe-me ir preciso andar. Vou por aí a procurar. Rir prá não chorar... Se alguém por mim perguntar, Diga que eu só vou voltar, Quando eu me encontrar...”

Vai para a Itália, terra de grandes romances mas resolve mergulhar na gastronomia. Come o tanto que pode de todas as delícias possíveis. Parte para a Índia onde se isola em busca da divindade, se afastando dos pecados e das tentações e terrenas, buscando a luz que precisa para iluminar seu caminho. Dali parte para a paradisíaca ilha de Bali na Indonésia, onde busca um feiticeiro que lhe tinha prometido revelar seus mais recônditos segredos. Liz achava que com as diversas experiências espirituais e afetivas, recém construídas, teria um alicerce seguro para seguir em frente na vida, por si só, sem as mazelas da vida à dois. Mas qual o quê! Encontra um homem que a retira da casamata existencial, das trincheiras da auto-defesa, trazendo-a de volta para as sensações espirituais e carnais, coincidência ou não, um brasileiro.

O livro é tratado por alguns como um manual barato de auto-ajuda e idolatrado por outros por demonstrar a coragem que Liz teve para mudar radicalmente sua vida, tentando encontrar um centro honesto para seus sentimentos e desejos. Certamente não possui a profundidade de um Jorge Luis Borges nem a argúcia de um Garcia Marquez, mas nos leva a refletir sobre nossa breve passagem aqui no planeta e nos aproximar, nem que só por meros instantes, de realizar aqueles nossos desejos secretos e sempre adiados por nossa comodidade.